Caio Cavechini fala de suas primeiras experiências com documentário

Por Crenilda Abreu

Ex-aluno do curso de jornalismo da ECA, Caio Cavechini teve como estréia o documentário Antes, um dia e depois que começou como trabalho de conclusão e foi crescendo até ganhar a versão definitiva, mais enxuta, que lhe rendeu o prêmio ‘diretor revelação’ na Mostra Internacional de 2006.
Resultado de um ano de viagens pelo país e um monstruoso trabalho de edição, o filme traz as histórias de oito pessoas prestes a dar uma grande reviravolta.



Desde 2007 no Profissão Repórter, continua realizando documentários e acaba de estrear no festival É Tudo Verdade com Carne e Osso que será assunto de debate/palestra com ele no próximo dia 4 no auditório Freitas Nobre a convite professor José Roberto Cintra, que o orientou no TCC.

Em meio à correria com seu último trabalho, feito em parceria com Carlos Juliano Barros, ele nos concedeu entrevista por e-mail em que comenta Carne e Osso e suas experiências em tempos de ECA. Um roteiro valioso das dificuldades técnicas, escolhas estéticas, da ajuda que recebeu de professores e colegas e da importância desse momento como estudante.

Outros colegas de curso optaram por um tema, um lugar, pessoas falando do lugar onde trabalham, vivem etc. Outros falam de assuntos como educação, um hobby… Antes, um dia e depois parece não ter um tema. São pessoas e suas histórias num momento de transição, histórias distantes que de certa forma estão unidas. Como é que surgiu a idéia desse primeiro documentário do TCC?

Eu não queria um tema, mas uma maneira de contar as histórias. Queria escolher um método, delimitar um campo de ação e dentro dele eu poderia transitar livremente. No começo, o próprio professor orientador torceu o nariz, mas isso me ajudou a fechar melhor a proposta. Meu documentário seria aquilo que acontecesse naquele espaço de tempo, e só. Então eu teria que me jogar na observação daquelas histórias, independente do que acontecesse, o importante era o registro cru daqueles momentos. Na hora da edição, percebi que o meu olhar sobre aquelas experiências havia sido um fio condutor, e assim segui.

Como é que começou aqui na ECA a movimentação pra fazer o documentário (gastos, a mobilização, a ajuda dos professores) ?

Tive uma ajuda monstruosa dos professores e da estrutura da Eca para fazer documentários, poder viajar com equipamento, poder experimentar na edição. Esse é o principal para quem faz documentário: poder testar, refazer, ver o que ficou bom e o que não ficou, trocar ideias para aprimorar. Os gastos com viagens obviamente foram por minha conta, mas só isso. Todo o resto foi na Eca, principalmente porque eu sabia que o tempo de experimentar é esse, depois a gente consegue um emprego e tem nossas margens de ação reduzidas.

Essa coisa de contar e focar em pessoas, parece que é a diferença do seu trabalho para outros, o seu parece o mais ficcional dos documentários dos alunos da ECA, você acha que isso foi fundamental no sucesso que teve?

Acho que mesmo quando você foca numa temática específica, você tem que estar aberto para olhar e observar as pessoas. Mesmo em um documentário investigativo, opinativo, social, enfim, são as pessoas e a qualidade dos depoimentos e das ações que vão dar corpo ao documentário. Eu observava um domínio da entrevista nos documentários dos alunos, e a entrevista não é tudo. Para alcançarmos personagens mais complexos, temos que observá-los de outras formas, registrar a forma com que se relacionam no seu meio, suas contradições, suas grandes virtudes e pequenos defeitos. Não que a gente consiga sempre isso, mas é o que o documentarista tem que buscar.

Você quando escolheu isso levou em conta que os documentários que se aproximam do ficcional porque narram historias têm uma recepção mais ampla? Ou isso teve mais a ver com as influências que recebeu de outros documentaristas?

Eu sinceramente não pensei na recepção. Claro que quando a gente quer contar uma história bem contada estamos pensando no público, mas não necessariamente é o seu ponto de partida. Já que o documentário atacava para vários lados, eu precisava de uma proposta unificadora, um princípio que orientasse minha ação, e a partir daí seu seria livre dentro desse limite que eu mesmo estabeleci. Acho que todo bom documentário precisa delimitar bem o seu campo de atuação para dentro dele ser o mais livre possível. Isso é algo que eu percebo sempre que assisto a um bom documentário, e percebia naquela época. Aí, quando eu estabeleci esse recorte de tempo, tudo o que acontecesse era matéria prima para mim. Temos um personagem e alguma coisa que vai acontecer na vida dele. Nesse sentido pode se aproximar da ficção, mas nem todas as histórias têm conflitos. E ao mesmo tempo, na vida real sempre acontece algo na nossa vida. Então acho que é o documentário que pode estar mais aberto a isso, e não necessariamente tomarmos esse registro das “transformações” como exclusividade da ficção.

Você não aparece no documentário, ao mesmo tempo em que se tem a sensação de que é seu o papel principal, talvez porque você se torne uma ligação entre as histórias. Por que essa escolha de não aparecer?

Primeiro uma questão técnica, que na maior parte das vezes eu estava sozinho, com a câmera na mão. E depois, uma escolha estética mesmo, porque queria dar luz aos personagens, mas ao mesmo tempo evidenciar que se tratava de um olhar de alguém que está atrás da câmera.

As frases escritas e as intervenções de texto na sua voz parecem colocá-lo em evidência. Você imagina o filme sem essas intervenções? O que o filme perderia sem elas?

Sim, é possível. O filme poderia se transformar em uma sequência de curtas, ao invés de um longa, porque as intervenções funcionam como amarração. Além disso, eu precisava de explicações sobre algumas passagens que eu não considerava adequado dar em texto na tela, porque eram explicações um pouco mais longas, sobre o contexto de cada história. Eu poderia fazer explicações mais impessoais e objetivas, por exemplo. Mas como o filme partia de uma ideia maluca de alguém que de repente quis registrar as histórias dessas mudanças, achei que isso precisava ficar claro também. Então é sempre uma questão de escolhas e de quais se adaptam melhor no projeto em questão. Já fiz documentários com e sem intervenções, e não tenho preferência por esse ou aquele estilo. É uma questão de escolher o que o filme pede.

Pelo que li o Carne e osso também tem esse foco em narrativas de pessoas.
Além da maturidade, o que mudou como documentarista desde Antes um dia e depois até o Carne e osso?

O Carne e Osso tem uma outra linguagem. É um documentário de crítica social, em que a voz do autor está ausente. Temos os depoimentos dos trabalhadores e a linha de montagem, a repetição que desumaniza a pessoa. É um documentário mais frio e mais seco, mas era o que a história pedia. Pessoalmente, acho que a gente sempre pode evoluir no sentido de encontrar as melhores soluções técnicas, estéticas e narrativas para a história que você quer contar.

Palestra com os diretores Caio Cavechini e Carlos Juliano de Barros:
Dia 4/05 no auditório Freitas Nobre do CJE às 20h.

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