Roberto Moreira comenta as novas coleções de DVDs da ECA

Por Crenilda Abreu e Walber Lustosa

Responsável pela indicação de grande parte dos DVDs, explica as escolhas que fez e fala da importância de montar um acervo com um panorama do cinema

Figura carimbada por aqui, não foi um novo filme que trouxe Moreira ao nosso blog.
Com dois longas, roteiros e muitos festivais no currículo, dessa vez ele foi o escalado por motivo menos cinematográfico, mas não menos importante: os 300 DVDs comprados pela Escola por sua indicação desde 2004, quando se tornou professor da escola de cinema.

Aluno da ECA na década de 80, relembrou as limitações do acervo e a dificuldade de se ver filmes quando a projeção, ao invés de luxo pra cinéfilo, era a única opção. “Só tinha os filmes da ECA e os filmes científicos da França, tudo em rolo, não tinha nem vídeo. Então o que fiz, eu e o Fernando Bonassi, foi assistir toda a produção da Escola até aquela data”.

A idéia inicial era falar sobre a coleção do alemão Alexander Kluge, indicação sua e vitrine do projeto de uma cinemateca canônica: ‘é como na FFLCH ter a edição master do Hegel, essa edição do Kluge é a edição oficial, de um dos maiores cineastas e intelectuais alemães’.
Mas cinéfilo que é, ficou tão empolgado com as aquisições que acabou por resumir e comentar vários diretores da lista de novos DVDs que chegaram desde o início do ano. Num próximo post traremos a lista atualizada das novidades e o apanhado dessas considerações.

A coleção de Kluge pela Filmmuseum, tem 24 DVDs com mais de 200 trabalhos entre filmes, documentários, entrevistas e programas de televisão.

Artistas na cúpula do circo: perplexos(1968)

Roberto fez um breve histórico da evolução do cinema na Alemanha, falou do vácuo da produção do pós-guerra, da chegada tardia ao Brasil dos cineastas do Novo Cinema Alemão e sobre a formação intelectual de Kluge.

O Novo Cinema alemão:


Teve o cinema mudo alemão que foi muito importante, o Fritz Lang, todo o expressionismo alemão, o Ruttmann, enfim é um dos cinemas mais importantes do mundo nos anos 20.

Aí vem a ascenção do Hitler que utiliza o cinema como máquina de propaganda. O Fritz Lang em 33 foge da Alemanha, tem uma debandada, e o cinema alemão se alinha completamente com o ideário nazista.

Hoje é que a produção pós Segunda Guerra está começando a ser valorizada porque os filmes estão voltando a circular, muito por causa do DVD.
Mas quando eu fazia cinema era um hiato, acabou o cinema alemão depois da guerra.

Até que nos anos 70 surgiram os primeiros filmes do Herzog, Wim Wenders e Fassbinder.
Foi o primeiro contato que a gente teve com o cinema alemão, uma Mostra acho que em 76 lá no MASP, quem organizou foi o Cakoff. Todo mundo ficou ‘siderado’ com os filmes. Porque o Novo Cinema alemão tinha vivido o impacto do Godard e do Desconstrucionismo nos anos 60, mas ao mesmo tempo recuperava formas narrativas clássicas, mantinha um compromisso, uma história.

Alexander Kluge

O Kluge foi um dos maiores intelectuais da segunda metade so século 20. Foi aluno e amigo do Adorno, participou da gestação do Novo Cinema Alemão, que foi lançado pelo Manifesto de Oberhausen em 1962, foi um dos que assinaram, ele, o Slondorff.
Fez parte de uma geração um pouco mais velha, anterior ao Wenders e ao Herzog.
Ficou famoso com a produção literária e intelectual, é um filósofo atuante na Alemanha, como é o Habermas, intelectuais formados na Escola de Frankfurt que intervêm no cenário artístico e cultural alemão.

Alexander Kluge

Influências:


Kluge está mais ligado à crítica das formas clássicas de narrativa, ele faz um cinema da montagem. O legal nos Artistas , é que tem um fio narrativo, mas ao mesmo tempo tem esse formato mais godadardiano de fazer a fragmentação, a montagem e a crítica da transparência cinematografica.
Outra coisa forte no Kluge é a influência do Brecht que é um cinema de intervenção política de discussão dos problemas da Alemanha. Tanto que depois ele pára de fazer cinema e vai fazer televisão.
Foi o Godard que fragmentou a narrativa lá nos anos 60. Antes dele no neorealismo há uma dilatação do tempo, as coisas começam a acontecer devagar, o Godard vai pegar essa dilatação e vai radicalizar.
Sem o Godard não tinha tido o Kluge, não tinha aquela colagem, montagem. O Pierrot le fou , o Made in USA(1966), filmes dessa época, os Artistas… é de 68, tinha um movimento geral de contestar formas narrativas clássicas e o Kluge estava inserido nisso .

Alexander Kluge
Precursor:


O nosso contato com o Novo Cinema Alemão foi nos anos 70, já com o Herzog e o Wenders fazendo coisas mais convencionais, só depois fomos ver mais de onde eles vieram? O Goethe era incrível porque trazia os filmes, eu assisti todos os filmes do Kluge em mostras do Goethe.
Aí a gente descobriu o Kluge que é um cineasta mais velho que o Wenders e o Herzog, já era um cineasta importante quando eles estavam começando a fazer cinema, que é essa primeira geração.
O cinema alemão pra nós foi muito forte, o Godard foi pra uma coisa muito radical, Um mais Um, Número dois, os filmes do Godard nos anos 70, sem pé nem cabeça.
E o Kluge mantinha a história, ele é narrativo, é fragmentado mas é narrativo, tem personagem. É tudo distanciado, mas tem o prazer da narração, o Godard acabou com esse prazer.

Despedida de ontem

Dica: Nos dias 20 e 21 de maio o Seminário: Revoluções – Uma política do sensível, no Sesc Pinheiros, terá vídeo-conferência com Alexander Kluge.

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