“quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha”

posted by Crenilda Abreu

Escolhi Bang-Bang da lista dos mais vistos semana passada porque é muito curioso que filmes como este integrem esta lista.
Esse é primeiro volume da coleção Cinema Marginal Brasileiro, fruto da Mostra feita em 2001 pelo CCBB e cujo católogo está praticamente todo on-line.
Marginalizados, diretores como Tonacci, Candeias, Bressane e Sganzerla não passavam sequer pela censura, muito menos chegavam ao circuito(exceção pro Bandido da luz vermelha, que chegou a sucesso de bilheteria).

Mas também escolhi porque tem um espírito nos marginais que nunca mais se viu no cinema brasileiro e precisa ser resgatado: fazer cinema a qualquer custo. Para isso ‘Cinema’ teve que deixar de ser questão de custo.

O jeito foi assumir como estética a fatal precariedade de recursos.
Se opondo a um Cinema Novo que começava a ficar ‘bem comportado’, a trupe do Boca de lixo elege o grotesco como sublime, reabilita a chanchada, improviso, vai buscar fazer o ‘Cinema Péssimo’, ideal de Sganzerla pra salvar o cinema nacional. Faz cinema sujo por excelência. CINEMA BOCA DE LIXO.

Escancara a consciência do ‘terceiro mundismo’ esquecida depois do Cinema Novo. Glauber nas alturas, empalhado ao lado de Fellini. Aqui na terra em transe Mojica se virava com as sobras de filmes da moviola de Silvio Renoldi.

E no entanto, ela se move…
Fizeram-se filmes. E filmes como ainda não se tinha feito.

O que resta ao cinema que politicamente enxerga o óbvio, mas que não quer dizer o óbvio, porque não pode e porque nao quer?
A simbologia grassou, tudo são símbolos tudo são referências. Não se diz do modo como se quer porque não se pode, então diz-se do modo como não pode.
O primitivismo das narrativas, o branco e preto estourado, um aparente subdesenvolvimento técnico metáfora(ou paródia) da miséria nacional são opções que compõem a estética anti-apuro-cinema-novista.

Dentro da estética do lixo, a paródia tem um papel estruturalizante. Torna-se um mecanismo de criação. Só que o alvo satírico não era apenas o cinema estrangeiro, como havia sido na chanchada, nos anos 50, mas o respeitável Cinema Novo. Claro que o fato deste ter se tornado alvo de torpedos indicava seu triunfo nacional e internacional. Mas, para o Udigrúdi, o Cinema Novo havia se aburguesado, virado mercadoria respeitável, cauteloso em relação aos temas tratados e à experimentação com a linguagem cinematográfica. Enquanto o Cinema Novo buscava um esquema de produção maior, calcado em melhor acabamento técnico, este Novo Cinema Novo exigia a radicalização da estética da fome, rejeitando um “cinema bem feito” em favor da “tela suja” da “estética do lixo”. Seria um estilo mais apropriado a um país pós-colonial, que transitava entre os detritos da dominação capitalista do Primeiro Mundo.

A hostilidade ao Cinema Novo pelo Cinema Marginal acabou por ressuscitar certos códigos da chanchada – desconsiderada pelos diretores do Cinema Novo. Talvez um questionamento consciente ao que era exaltado por este: a busca intelectualizada dos valores nacionais da alta cultura literária, como Vidas secas, de Graciliano Ramos, ou Menino de engenho, de José Lins do Rego. Não escapou também desse crivo o visual meio documental europeu, em preto e branco, câmera na mão, montagem elíptica, cheia de jump-cuts, como em Godard, Lindsay Anderson, Karel Reisz, Bertolucci ou Pasolini. Nem tampouco o estilo frio e distanciado de Antonioni – utopia máxima do cinema militante e socialmente consciente. Para o Udigrúdi, os pingos nos iis são colocados na declaração anárquica de que “quando você não pode mudar, você avacalha”, no dizer do tal Bandido da luz vermelha. João Luiz Vieira, In: Lixo, marginais e chanchada

Bang-Bang é avacalhação das mais conscientes.  Consciente de que a personagem-padrão,  hollywoodiana, à imagem do burgês-médio está cheia. Suas entranhas são até a última tripa  o que tem de mais banal e reconhecível, não sobra espaçozinho pra contribuição de quem vê. Não há o que projetar, está tudo posto tudo dito com pormenores.  Bang-Bang  é tentativa de brincar com essa inércia: quem sair aturdido da sala escura é mulher do padre.

” de  fato não é possível manter uma lógica, você é obrigado a projetar um sentido pra que aquela história continue. Então, na verdade,  o vazio do personagem é tudo aquilo que você não põe no personagem que não se conseguiu projetar nele. Se você fica neutro diante de um simbolo, tá faltando alguma coisa que não tá na ausência de sentido do símbolo, mas na ausencia da tua capacidade de projetar em cima do simbolo”  Andrea Tonacci

O ilusionismo de Tonacci vai longe. Difícil acreditar, mas Bang bang  foi rodado na Belo Horizonte dos anos 70.

É impressionante que o filme tenha como parte dominante de seu “cenário” a provinciana Belo Horizonte dos anos 1960-70. O modo como Tonacci transforma essa cidade num dos ambientes do cinema moderno brasileiro é um verdadeiro tour de force. Filme construído nos planos, mais que na montagem e no enredo, Bang bang destina à câmera uma autonomia explosiva. A segurança com que ela percorre ruas, invade interiores, segue personagens e também afronta estaticamente a cena é muito, muito humilhante para diretores medianos, que ficam a elucubrar, por minutos, se passam ou não do plano médio para o plano geral. Alcino Leite Neto

O Bandido e Bang bang têm em comum o uso subversivo das técnicas cinematográficas, travellings, o plano sequência, e principalmente o explícito embaralhamento da montagem.

Sobre a composição técnica em Bang bang, a fala de Ismail Xavier na Mostra Cinema Marginal desmistifica a idéia de falta de técnica entre os marginais:

é o filme mais rigoroso do ponto de vista formal. Trabalha a ruptura bastante radical das convenções, mas trabalha essa ruptura deixando muito claro o domínio dos instrumentos, seja na utilização de câmera,  naquilo que significa enquadramento, na composição do quadro não só nos limites mas naquilo que se põe em foco, a rotagem , a relação imagem e som, a justaposição e a recusa de trabalhar com a narrativa ‘começo, meio e fim’.

“Eu não tenho nada a ver com isso”

Veja o  trecho inicial dos extras do DVD,  palestra de Ismail Xavier sobre Bang-bang.

Material Consultado:

Livro: Cinema de Invenção (primeira edição da Max Limonad, em 1986, reeditado pela Limiar, em 2000) de Jairo Ferreira.


Em Cinema de Invenção  Jairo Ferreira faz a crônica da Boca em dialeto marginal. A reunião de textos críticos dos jornais da época é o ponto forte do livro.

O Cinema Marginal Revisitado, ou o avesso dos anos 90 – Ismail Xavier

http://dc136.4shared.com/img/jftJ5_a9/preview.html

O site da Hecho tem o material organizado por Eugênio Puppo e Vera Haddad para o catálogo do CCBB “Cinema Marginal e suas fronteiras”. coleção cinema marginal Brasileiro

http://www.heco.com.br/marginal/01.php

http://vimeo.com/7104077

O Blog ‘ cinema de invenção’ tem uma porrada de textos de Jairo Ferreira :

http://cinema-de-invencao.blogspot.com/2007/04/entrevista-com-jairo-ferreira.html

Ainda sobre Jairo:

http://www.ufscar.br/rua/site/?p=2682

http://www.contracampo.com.br/80/livrojairo.htm

Sobre Bang bang:

http://www.contracampo.com.br/79/artbangbang.htm

O cinema marginal no acervo da Eca:

Gamal, o delírio do sexo(1969)  ANDRADE, João Batista de

Meteorango Kid: o herói intergaláctico(1969) OLIVEIRA, André Luiz

de Andréa Tonacci

Olho por olho(1966),
Blá, blá, bla(1968)
Bang bang

de Júlio Bressane
Cara a cara(1968)
A famíla do barulho(1970) Júlio Bressane
Matou a família e foi ao cinema(1969)
O anjo nasceu(1969)

de Rogério Sanganzerla
A mulher de todos (1969)
O bandido da luz vermelha(1968)
Horror Palace Hotel,ou O gênio total, feito em parceria com Jairo Ferreira é de 1978, portanto não faz parte da cronologia do cinema marginal(1968-73).

de  Ozualdo Candeias
Meu nome é Tonho(1969)
Uma rua chamada Triumpho(1971),
A herança(1971),

Zézero(1974) : posterior ao cinema marginal(68-73) propriamente dito mas considerado por Jairo Ferreira junto com O candinho(1976), seu melhor filme

de Ozualdo falta no acervo A margem, considerado filme inaugural dos marginais.

Anúncios

One Response to “quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha”

  1. Jhon Marcos Pissarro Kalil disse:

    Muito bem Crenilda, bom analise, realmenteé dessa forma e todo, pela elite é marginal é boca do lixo. Mas pregunto! Ate quando?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: