A iconoclastia do livro

colaboração do ex-aluno Robson @ashtoffen
 

 

Ambas as  imagens sintetizam o que é o Livro em sua completude. Ambas retratam os principais sinais para a compreensão do que é e do poder do livro.

Me refiro aqui ao Livro como conceito além da sua materialidade. Para nós, um livro é definido pelas suas características físicas, materiais. Quantidade de páginas, formatação, estrutura, estética. Aqui vamos pensar no Livro não somente restrito ao seu material, mas também no que ele é capaz, no seu poder, essencialmente de:

Destruição – a foto da queima de livros pelo partido nazista é simbólica na sua ação, obviamente ideológica e profundamente política. Quantos livros foram queimados pelo Index, por impérios dominadores? A Biblioteca de Alexandria teve perdas enormes em seu acervo único. A queima aqui representa, metaforicamente, a destruição simbólica das idéias, o ataque, o contra-ataque, o poder do fogo. O livro queima tanto quanto nós, vira cinzas tal qual seus leitores, e expandindo mais a lógica, o livro sofre a influência do tempo. O tempo está no livro e o livro está no tempo, portanto preso às suas leis. Assim estamos nós na mesma condição. Condição de mortalidade. O livro é mortal.

e

Construção – A foto oposta contrasta a destruição causada pela guerra e a força de resistência das idéias. A possibilidade da transformação que o livro detém em seus códigos é um poder. Um poder que é atualizado na leitura. Forças desse poder, origem, quaisquer especulação sobre isso nos levará a uma discussão labiríntica. Pensemos na possibilidade dita no começo do parágrafo: transformar depende da visão de mundo do leitor, depende da sua força, como humano, para compreender a seu modo, o Livro. Esse processo de compreensão, interpretação, chama-se diálogo.

A construção pelo diálogo é uma roleta de tamanho colossal, tão grande que ficamos no centro desta e longe demais dos números (seriam símbolos, signos, talvez números iguais, ou espaços em branco?) em que supostamente apostamos acertar. Essa roleta gira, e mesmo que tentássemos nos aproximar das bordas da roleta, a força do giro não nos deixa ver o que está escrito em cada vão da roleta. É a Roleta do Infinito. Possibilidades infinitas de compreensão, até mesmo desse mecanismo de compreensão. Se pudéssemos ter uma idéia clara do que é e como funciona a compreensão da leitura de mundo em uma escala do universo do compreender, obteríamos de imediato a noção do infinito.

Para destruir é preciso ter algo construído. A idéia, chamo aqui de Livro (em sua materialidade e em sua transcendência), pode destruir uma visão. Não se quer dizer que esta desaparece, mas esta transforma-se, é destruída a sua estrutura, porém sua essência ainda resta e convive com a nova visão dada pelo fruto do Livro. É a dualidade que destrói, pode ser destruída (por causa da sua mortalidade), e é, ao mesmo tempo, a construção do diálogo, a tese; é de fato uma experiência. Uma construção que demanda destruição é uma reconstrução. Para reconstruirmos algo, precisamos por abaixo aquilo que ainda está de pé, mas sempre o pó das ruínas torna-se alicerce para o novo. É o que chamo de Complexo de Reconstrução.

O livro gera frutos, e estes são indestrutíveis, incomensuráveis, indefiníveis e indetermináveis. Os frutos que Aristóteles, Galileu, Newton, a Bíblia Sagrada, o Alcorão fizeram germinar mudaram o curso do pensamento e da história. Essa é a condição da idéia, pode ser liberta do seu enclausuramento e fundir-se na história, numa comunidade, numa cultura, em uma família, em uma pessoa (temos aí uma Escala de Poder). A roleta é infinita, as interpretações também o são, porém estão jogadas num campo habitado pela ideologia, pela política, pela visão de mundo, pelo céu e pela terra. Estão vulneráveis e serão, pode-se até ter certeza, maculadas em seu pleno campo de existência.

O peso que Karl Marx, Bíblia, Newton… tiveram na história foi permitido pela organização de suas idéias. Houve uma formatação. E esse processo de formatação enclausura esta idéia em um sistema, uma língua, um estilo, um fluxo de escrita, toques do autor. É como uma cena faústica, a idéia ganha a imortalidade em troca de sua perpetuação além do autor. Ela é trancada na estrutura do livro, materializa-se, portanto. Fraca a idéia torna-se, pois está condenada à Roleta do Infinito, sua tontura se dá na infinita velocidade e na infinita extensão da roleta.

O poder está na manifestação. Não digo que idéias revolucionárias emergem ativas por causa de livros, mas claramente pode-se dizer que houve um condicionamento para tal, ou seja, o livro criou condições (caminhos incomensuráveis) para que essa idéia contaminasse uma grande escala de indivíduos e visões de mundo, um escala histórica.

O fruto do livro pode ser degustado levemente, mas a intensidade de seu gosto é proporcional à sua Escala de Poder que pode atingir a história, gritando mais alto para que o mundo o ouça. As consequências estão no mesmo lugar do leitor na sua leitura particular ou atuação política coletiva, estão na todos na roleta. Capturar a essência do fruto do livro é impossível, o infinito é imune as nossas categorizações e limitações existênciais.

O livro transcende, germina, a si mesmo pela fertilização entre o livro e o leitor. Essa fertilização denuncia uma semente. Portanto, ler é um processo germinativo. É um cultivar. E queimar os livros é o ato de pôr à prova sua idéia. Aqui encontramos as letras em miúdos no rodapé do contrato fáustico que adenda a vulnerabilidade física do livro. A idéia torna-se resistente ao tempo, possivelmente imortal, porém atada ao livro, seu formato e sua concepção mortal. É o engano do diabo. A esperteza luciférica condenando o livro ao eterno caos que ainda nem uma fecundação e nenhuma germinação dará luz da sua forma e sua essência. Tenhamos humildade.

Claramente vemos a importância política, simbólica de queimar livros. É a manifestação da Escala de Poder do Livro, da sua transcendência. O manifestar denuncia um espírito, o espírito que surge do germe, filho do matrimônio leitor e idéia, faz parir frutos na mente daquele que leu, porém muitos morrem insuficientes, outros são grandes demais para sair da cabeça, outros são tão pequenos que se perdem e nunca os encontramos.

O livro é mortal e necessita ser conservado, é o que pensamos. Porém, alguns sempre serão postos em sacrifício e postos a prova perante a História. Adorar a casca sistêmica de idéias que é o livro, é o mesmo que adorar uma imagem, é o imobilizar da idéia, é a condenação eterna da idéia. Mefisto ri ardorosamente. O foco deve ser a idéia e sua condição de enclausuramento.

Como libertar? Nasce a questão! Ler é um ato de libertação. Libertação da idéia para a sua reconstrução mergulhada na complexidade de visões que está sujeita. Estamos com os olhos na liberdade ou na clausura de idéias? O quão escuro é essa caverna da estrutura linguística que o livro emoldura? É possível perder-se no regime fechado. Fechar-se ao ícone. A iconoclastia liberta. Mas a idéia deve ter uma essência menos volátil do que sua fumaça e cinzas e deste modo trapacear o diabo. Torna-se tão viva e quente quanto as chamas que consomem sua prisão.

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One Response to A iconoclastia do livro

  1. Estou justamente lendo “Los libros arden mal”, do espanhol Manuel Rivas. A foto de capa da minha edição é essa segunda, dos leitores na biblioteca bombardeada. O título se refere à queima de livros promovida pelos falangistas depois da derrota da república espanhola.

    http://www.diariosigloxxi.com/texto-diario/mostrar/21378/los-libros-arden-mal-ultima-novela-de-manuel-rivas

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