Carlos Reichenbach, 1945-2012, cineasta brasileiro

    (foto publicada no blog Câmara Escura)

Carlos Reichenbach nasceu em 1945, na cidade de Porto Alegre (RS). Estudou cinema na Escola Superior de Cinema São Luís, onde foi aluno de Luís Sérgio Person. Alice, filme em episódios filmado com João Calegaro e Antônio Lima, foi seu primeiro longa-metragem.

Logo depois começou a trabalhar com o núcleo de produção localizado na Rua do Triunfo, em São Paulo, conhecido como Boca do Lixo, onde realizou o sucesso Ilha dos prazeres proibidos.

Anjos do arrabalde, de l986, recebeu o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado. Alma corsária, de 1993, venceu o Festival de Brasília nas categorias melhor filme, direção, roteiro e montagem.

Reichenbach também foi diretor de fotografia, atuou como ator em diversas produções e deu aulas aqui na ECA/USP.

No acervo da Biblioteca temos boa parte da obra do cineasta, confiram a lista abaixo.

Reichenbach diretor

Filme demência (1985)

col., 90min

Com: Ênio Gonçalves, Emílio di Biasi, Imara Reis.

Após assistir impotentemente à falência de sua pequena indústria de cigarros, Fausto mergulha no interior de si mesmo. Rompe com Doris, a esposa infiel, rouba o revólver do zelador do prédio em que mora e sai pela noite de São Paulo em busca de Mira-Celi, seu paraíso imaginário. Em seu trajeto suicida, encontra personagens emblemáticos de sua existência obscura.

Uma adaptação personalíssima da lenda de Fausto e sua busca do conhecimento. Goethe, Marlowe, Coleridge, Murnau e as óperas de Mahler e Gounod, são vistas sob sua muito especial ótica urbana. Uma experiência radical que trafega por caminhos pouco usuais no cinema brasileiro. (…) Polêmico, aparentemente desgovernado, carregado de citações literárias, Filme Demência (anagrama de filme de cinema) indica uma nova guinada na obra de Reichenbach. A partir daqui ele passa a se expor em seu cinema. O roteiro é inspirado na sua relação com o pai. (pp. 217-8)

Anjos do arrabalde (1987)
col., 90 min

Com Betty Faria, Clarice Abujamra, Irene Stefânia.

Drama que se passa na periferia de São Paulo, onde três professoras primárias vivem seu cotidiano, pleno de fatos insignificantes misturados a pequenas tragédias. No final, estas vidas comuns dão matéria para um pequeno escândalo em seu meio.

Votado pela crítica brasileira como um dos melhores filmes da década de 80, Anjos do Arrabalde retrata as consequências da violência urbana no cotidiano da classe-média brasileira. Reichenbach mergulha em seu imaginário a respeito do universo feminino submetido à violência machista que estigmatizava certas regiões em São Paulo. (p. 251)

Alma corsária (1994)

col., 115 min

Com Bertrand Duarte, Jandir Ferrari, Andréia Richa.

A história da amizade entre os poetas Rivaldo Torres e Teodoro Xavier, mostrando os motivos que levam os dois amigos a escreverem o livro Sentimento Ocidental a quatro mãos. Abrangendo o final dos anos 50 até o início dos anos 80, reflete as mudanças sociais e políticas do país, através da formação cultural, das experiências pessoais e das musas que os inspiraram.

Talvez o melhor filme do diretor, ao lado de Filme Demência. Um filme urbano, político, fiel retrato dos anos da ditadura militar, e também uma revisão de sua própria vida. Alguns dos personagens foram diretamente inspirados em seus amigos de infância e juventude, como a própria voz do diretor adverte, em tom solene, logo no início do filme. Mas os dois protagonistas também retratam experiências vividas pelo autor, e ambos possuem características suas (o humor de Bertrand e suas reações diante de determinadas situações, por exemplo). O estilo narrativo, que muda de gênero, da comédia ao drama, da chanchada ao filme político, o torna herdeiro e uma evolução do estilo apresentado em Lilian M.. (pp. 268-9)

Olhar e sensação (1994)

col., 10 min

Imagens de animais no zoológico de São Paulo (pantera, gorila, tigre, leoa e outros), entremeadas a imagens da cidade de São Paulo: casarões, Vale do Anhangabaú, estátua “O semeador”, de Gaetano Fraccaroli. Texto “A consciência de Zeno”, de Ítalo Svevo. Filme realizado para o evento Arte / Cidade.

Realizado por ocasião do evento multimídia Arte/Cidade, justamente por isso o curta foi inicialmente exibido em sua versão muda, projetado na parede suja de um prédio do Vale do Anhangabaú. O menino que aparece nas fotos antigas é o próprio realizador. É emblemático que a fotografia escolhida para encerrar o filme seja justamente uma em que Reichenbach aparece de mãos dadas com o seu pai, precocemente falecido, caminhando por uma estrada vazia. Essa imagem ao som de ondas quebrando é quase uma síntese de sua relação com o pai, presente direta e indiretamente em vários de seus filmes. (p. 283)

Assista no Porta Curtas

Dois córregos: verdades submersas no tempo (1999)

col., 112 min

Com:  Carlos Alberto Riccelli, Beth Goulart, Ingra Liberato.

São Paulo, 1997. Ana Paula, 45 anos, viaja ao interior a fim de recuperar a casa de campo herdada dos pais, que está ocupada por grileiros. Constrangida pela indiferença de seu advogado e da rispidez da polícia, recorda a última vez que esteve na casa. Em 1969, aos 17 anos, Ana Paula leva a amiga de escola Lydia, uma exímia pianista e filha de um militar graduado, para conhecer a casa. Passam alguns dias em companhia de Tereza, empregada e pajem da irmã de criação de Ana Paula, e de seu tio Hermes, que mora no sul do país e que ela não conhecia. Perseguido e exilado devido ao seu envolvimento com a luta armada, Hermes está escondido da polícia e tenta regularizar sua volta ao Brasil. A convivência com o clandestino Hermes transforma a temporada em uma espécie de rito de passagem para as duas amigas adolescentes, que aos poucos vão conhecendo o que se passava naquele momento da vida do país. Um incidente com o namorado de Tereza, o sargento Percival, encerra abruptamente a temporada no local, culminando com o desaparecimento de Hermes. De volta ao presente, Ana Paula consegue esclarecer o mistério a respeito do desaparecimento do homem que amou em segredo durante a adolescência.

Um filme intimista, talvez o que mais se aproxima da narrativa clássica, entre todos os filmes do diretor. Baseado na sua própria experiência de juventude, quando também teve um parente refugiado em casa, Dois Córregos, a exemplo de outros filmes de Reichenbach, também procura exorcizar fantasmas dos tempo do regime militar. (p. 290)

Garotas do ABC: Aurélia Schwarzenega (2004)

col., 124 min.

Com:  Michelle Valle;  Fernando Pavão; Vanessa Alves;  Ênio Gonçalves.
Um grupo de mulheres trabalha numa tecelagem em São Bernardo, cidade do ABC paulista. Aurélia, moça forte e decidida, fã de soul e de homens musculosos, namora um rapaz perturbado que se envolve com uma gangue de neonazistas. A novata Antuérpia tenta, aos 38 anos, aprender uma nova profissão. Paula, líder natural entre as colegas, é convidada a entrar para o sindicato. Suzana, apaixonada pelo patrão, coleciona marcas de acidentes de trabalho e indenizações.

Este filme faz parte de um projeto maior, cuja gênese eram dois roteiros que o diretor tinha, sobre o universo da mulher operária da indústria têxtil, que ele planejava realizar simultaneamente: Sonhos de Vida e Vida de Sonhos. O primeiro enfocava o universo do trabalho das tecelãs e o outro, o tempo livre. Era uma proposta com o habitual teor libertário, marcando o tempo livre como o verdadeiro espaço de liberdade das operárias. Ele apaixonou-se pela ideia e continuou trabalhando nos roteiros, a ponto de ter que desmembrá-los. (…) Garotas do ABC é o primeiro fruto do projeto a chegar às telas. É uma ousada tentativa de fazer um filme sem protagonistas, no qual a maioria das operárias tem papel de importância. O roteiro foi resultado de uma pesquisa de campo que o diretor fez na região do ABC, o que lhe confere interesse social. (pp. 300-3)

Falsa loura (2007)

col., 97 min

Com:  Rosanne Milholland,  Cauã Reymond,   Maurício Mattar.

Silmara (Rosanne Mulholland) é uma bela operária que sustenta seu pai, Antero (João Bourbonnais), um ex-presidiário que foi deformado pelo fogo. Ela tenta a todo custo manter um relacionamento amigável com ele e com seu irmão caçula, Tê (Léo Aquilla), ao mesmo tempo em que mantém um relacionamento ambíguo com a professora de dança Regina (Luciana Brites). Na fábrica em que trabalha Silmara é incentivada a ajudar Briducha (Djin Sganzerla), uma mulher tímida e solitária. As duas e Regina vão ao show do grupo Bruno e os Andrés, onde Silmara conhece e se envolve com Bruno de André (Cauã Reymond), ídolo da banda. Logo Silmara se torna o sonho de suas amigas, por representar a chance de uma rápida ascensão social.

Reichenbach fotógrafo

Aventura, amor e transporte público (1991)

Direção de Bruno de André, col. 7 min.

Sem diálogos e com a música “Cavalgadas das Valquírias” de Wagner ao fundo, mostra a aventura de um jovem ao andar de ônibus urbano em São Paulo: subir no ônibus, conseguir dinheiro trocado, combater o batedor de carteira. Durante o percurso uma moça à procura de seu amor entra no ônibus, e eles se desencontram. Encontram-se ao atravessar a rua, entreolham-se ao virarem para trás e, cada qual segue o seu caminho. Dois ônibus também seguem paralelos pela rua.

Assista no Porta Curtas

Reichenbach ator

Finis Hominis (1971)

Direção de José Mojica Marins, col. e p&b, 79 min.

Um homem completamente nu surge do mar e caminha pelas ruas da cidade, interferindo na rotina das pessoas. Surpreendido por um padre, que se espanta ao ver o herege bebendo vinho da comunhão, o misterioso visitante assume o nome de Finis Hominis (fim do homem, em latim). Tido pela população como um messias moderno, capaz de operar milagres, ele segue sua trajetória imprevisível, tendo como seguidores pessoas de diferentes classes sociais.

A porquinha (1994)

Direção de Claudio Ferraraz Jr., col. 6 min.

Final de filmagem. O filme “A porquinha” é montado e projetado. Trata-se de uma mulher que, enquanto coloca moedas num cofre em forma de porquinha, vai falando com uma voz semelhante aos grunhidos de um porco. Após a projeçäo, a atriz declara-se satisfeita com o resultado, mas lamenta seu “probleminha de dicçäo”.

Assista no Porta Curtas

 Mais alguns filmes para ver no Porta Curtas

Equilíbrio e graça

Esa rua tão Augusta

Desordem e progresso

Sangue corsário

O “M” da Minha Mão

Documentários no Youtube

Carlão: um autor no cinema

Homenagem durante o III CURTA NEBLINA

Reichenbach no acervo de livros

LYRA, Marcelo.  Carlos Reichenbach : o cinema como razão de viver.  São Paulo : Imprensa Oficial, 2004. 791.430981  R351L

REICHENBACH, Carlos, 1945-2012.  Dois córregos : verdades submersas no tempo.  São Paulo :  Cultura/Fundação Padre Anchieta, Imprensa Oficial, 2004. 791.430981  R351d

REICHENBACH, Carlos, 1945-2012.  ABC Clube Democrático : 4 roteiros de Carlos Reichenbach.  São Bernardo : ABCD Maiorm 2008.  791.430981  R351a

As informações biográficas deste post e os comentários sobre os filmes foram extraídos do livro de Marcelo Lyra.

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