Arquivo Miroel Silveira

A Biblioteca da ECA tem sob sua guarda uma coleção das mais importantes e sui generis do teatro brasileiro, o Arquivo Miroel Silveira (AMS).

Constituído por documentos de censura prévia ao teatro, dos anos 1920 a fins da década de 1960, reunidos no Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, a riqueza do acervo fica evidente por sua abrangência: são mais de 6 mil processos contendo a solicitação de censura, por parte do produtor da peça, requerimentos e comprovantes exigidos dos solicitantes, o original da peça com eventuais cortes de palavras, de trechos e de personagens,  incluindo o certificado de censura com a indicação dos censores. Alguns processos trazem, ainda, abaixo-assinados explicitando que parcelas da sociedade requeriam censura a determinadas peças teatrais.

processo-interior

A professora Cristina Costa, coordenadora do AMS, nos recebeu para uma conversa sobre esse acervo e conta que o mesmo  não é composto somente por teatro erudito, pois,

“todo mundo que ia fazer teatro tinha que levar para o censor, até teatro estudantil… temos teatro operário, infantil, circo teatro, teatro amador.”

Foi essa diversidade que estimulou o contato de Miroel Silveira com o acervo, já que costumava consultá-lo no Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, em decorrência de seu interesse por cultura popular. Homem de talentos diversificados, Miroel foi ator, diretor, produtor e crítico teatral, além de professor do Departamento de Artes Cênicas e da Escola de Arte Dramática da ECA.

“quando nos anos 80 começou a se falar em abertura e já se falava em extinguir a censura, o Miroel Silveira viu que logo logo aquele arquivo ia desaparecer e foi até o serviço de censura e pediu pra resgatar aquele arquivo. Eles deixaram.”

requerimento

No ano 2000, o acervo passou para custódia da Biblioteca da ECA e, sob coordenação da Profa. Cristina Costa, o Arquivo Miroel Silveira, nome em homenagem aquele que reconheceu  sua importância, começou a ser redescoberto.

Os processos de censura do AMS referem-se a peças de teatro apresentadas em São Paulo. Trata-se da censura oficial, aquela que conta com o aparelho do Estado para sua execução.

Para Cristina, a censura

 na busca de minar  “a crítica ao poder instituído”, às vezes,  “esconde sua justificativa atrás de princípios de moral e bons costumes que nem sempre são muito válidos.”

manifestacao apoio a censura

Há, no entanto, outras censuras ou outras formas de exercer a censura.  Com a criação do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom), os pesquisadores vinculados ao AMS passam a se interessar não só pela censura promovida pelo Estado.

“Hoje nós temos uma censura indireta.”

“Nós temos censuras judiciais, que é o que a gente chama de censura togada…  No Estado nós temos principalmente os juízes fazendo censura oficial, porque são liminares. Nós temos a censura que também tem um fundo do Estado, que são as leis de incentivo, porque você faz com que os departamentos de marketing das empresas decidam o que vai ser encenado ou não.”

Cristina expõe a censura como

“aquilo que afeta a informação pública, a comunicação pública, […] [aquilo que] impede que as pessoas tomem conhecimento, informem-se, formem opinião.”

Questionada sobre certos discursos que colocam a regulação da imprensa como censura, a professora afirma

“Tem que ter regulação… Para as empresas neoliberais o que importa é o livre mercado da informação, eles não querem nenhum tipo de controle sobre esse fluxo de informação que controlam, […] eles [lidam] com conceito de liberdade que [provém] do liberalismo: liberdade de mercado da comunicação”.

Como exemplo bem-sucedido de órgão regulador, Cristina cita a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), responsável pela regulamentação da imprensa em Portugal.

Retomando a importância do Arquivo Miroel Silveira, a professora é assertiva:

“Não há outro acervo da mesma qualidade de dramaturgia brasileira, tem tudo que foi a revolução do teatro brasileiro.”

censura ben hur

Corroborando essa opinião, estão algumas publicações que surgiram a partir das pesquisas no Arquivo Miroel Silveira e podem ser encontradas na Biblioteca da ECA :

Roseli Figaro (Coord.). Na cena paulista, o teatro amador: circuito alternativo e popular de cultura (1927-1945).

Mayra Rodrigues Gomes. Palavras proibidas: pressupostos e subentendidos da censura teatral.

Cristina Costa (Org.). Seminários sobre censura: Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Censura: (NPCC/ECA/USP).

Cristina Costa (Org.). Censura, repressão e resistência no teatro brasileiro.

Roseli Figaro (Org.) Teatro, comunicação e sociabilidade: uma análise da censura ao teatro amador em São Paulo (1946-1970).

Cristina Costa. Censura em cena: teatro e censura no Brasil.

Cristina Costa (Org.). Comunicação e censura : o circo-teatro na produção cultural paulista de 1930 a 1970.

Maria Aparecida Laet. Arquivo Miroel Silveira: uma leitura dos processos da censura prévia ao teatro sob o prisma do gerenciamento de informações.

Jacqueline Pithan dos Santos. Miroel Silveira: um homem de teatro no espírito do seu tempo.

Saiba como consultar o Arquivo Miroel Silveira

Textos produzidos por integrantes do Obcom

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