O saber de experiência

Para muitos estudantes o mês de julho é um dos mais aguardados já que representa uma pausa na rotina de estudos. Pausa que abre espaço para atividades que não cabem na atribulada agenda do dia-a-dia: aulas, leituras, seminários, provas, trabalho; tudo isto somado à vontade de manter-se informado, de estar atualizado sobre o que se passa a nossa volta.

Nessa atribulada ciranda de informações falta espaço para a experiência, para que algo se passe, aconteça conosco. E é a partir dessa ideia que trazemos alguns trechos escritos por Jorge Larrosa Bondia em artigo intitulado Notas sobre a experiência e o saber da experiência, que nos propõe pensar a educação a partir do par experiência/sentido.

pensar não é somente ‘raciocinar’ ou ‘calcular’ ou ‘argumentar’, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece.

Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara. Em primeiro lugar pelo excesso de informação.  O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de ‘sabedoria’, mas no sentido de ‘estar informado’), o que consegue é que nada lhe aconteça.

Depois de assistir a uma aula ou a uma conferência, depois de ter lido um livro ou uma informação, depois de ter feito uma viagem ou de ter visitado uma escola, podemos dizer que sabemos coisas que antes não sabíamos, que temos mais informação sobre alguma coisa; mas, ao mesmo tempo, podemos dizer também que nada nos aconteceu, que nada nos tocou, que com tudo o que aprendemos nada nos sucedeu ou nos aconteceu.

[…]a experiência é cada vez mais rara, por falta de tempo. Tudo o que se passa passa demasiadamente depressa, cada vez mais depressa. O acontecimento nos é dado na forma de choque, do estímulo, da sensação pura, na forma da vivência instantânea, pontual e fragmentada. A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos. Ao sujeito do estímulo, da vivência pontual,tudo o atravessa, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca, mas nada lhe acontece.

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção,um gesto que é quase impossível nos tempos que correm:

requer parar para pensar,

parar para olhar,

parar para escutar,

pensar mais devagar,

olhar mais devagar, e escutar mais devagar;

parar para sentir,

sentir mais devagar,

demorar-se nos detalhes,

suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação,

cultivar a atenção e a delicadeza,

abrir os olhos e os ouvidos,

falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão,

escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito,

ter paciência

e dar-se tempo e espaço…

Para experimentar mais: LARROSA BONDIA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, jan./abr. 2002.

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One Response to O saber de experiência

  1. Vanda Angélica da Cunha disse:

    Excelente contribuição, especialmente para os alunos e outras categorias que, infelizmente não são ensinados, estimulados a pensar(criar, inovar).

    Estou repassando para a lista de alunos do Curso de Biblioteconomia da UFBA.

    Curtir

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