O silêncio

antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
(Arnaldo Antunes. O silêncio)

Às 18h15, na Biblioteca da ECA, o celular do João Pedro tocou. Sempre muito ocupado, João tinha esquecido de colocar o aparelho no modo vibratório. Era o chefe, ele precisava atender. João Pedro atravessou a Biblioteca toda com seu vozeirão soando alta e claro, ainda que em frases curtas –  Sei, sei. Tá bom. É, tô aqui na USP –  até chegar na porta e falar à vontade.

Dez minutos depois, o filho da Luciana ligou. Filho, agora mamãe não pode. Agora não dá, Gustavo! Não dá, já disse, liga para o seu pai! Tenta a vovó, então, mesmo que eu saia daqui AGORA não vou chegar em tempo, filho. Tá bom. Beijo, te amo. Luciana começou sussurrando, mas acabou erguendo a voz em alguns momentos.

Por volta das 18h35, em meio às estantes,  a Tati encontrou duas amigas que não via há séculos. Os gritinhos de alegria foram inevitáveis. Que saudades, Ju! Há quanto tempo, Má. Alguns usuários olharam feio, a bibliotecária deu uma espiada por cima dos óculos e as meninas saíram aos saltinhos para conversar lá fora.

Um grupinho que estava estudando numa das mesas da sala de leitura – a salinha de estudos em grupo estava lotada – repentinamente se animou com uma descoberta engraçada. Começou uma série de gargalhadas mal abafadas às 18h45.

Logo em seguida, outro telefone tocou estrepitosamente o tema da Missão impossível, mas foi prontamente desligado por seu constrangido proprietário.

Ninguém fez por mal, ninguém queria deliberadamente incomodar os outros. Mas a Marcela, que passou a noite em claro terminando um texto, trabalhou o dia todo, só tinha uma hora para revisar o trabalho antes da aula e foi à Biblioteca em busca de sossego, teve sua concentração interrompida 5 vezes. O mesmo aconteceu com o André, que não conseguiu terminar a leitura de um artigo complexo, escrito num idioma que ele não domina.

Quase todas as reclamações que a Biblioteca da ECA recebe de seus usuários estão relacionadas ao barulho. As pessoas pedem que a Biblioteca tome providências.

Sim, nosso espaço não favorece a convivência entre os usuários que precisam de silêncio e os que, eventualmente, precisam conversar. Mas, no momento, é o espaço disponível. Mudanças poderão acontecer, mas não imediatamente.

Por esse motivo, vamos começar uma campanha pela tranquilidade dos nossos usuários. Vamos pedir a todos que se coloquem um pouco no lugar do outro e evitem:

  • conversar em voz alta
  • falar ao celular
  • deixar o celular tocar

Não é nada muito difícil, certo? Esses pequenos gestos podem favorecer muito a concentração de quem precisa de silêncio para estudar e espera encontrar isso na biblioteca.
Se todo mundo for solidário com seus colegas, os bibliotecários não vão precisar fazer psiu.

Um artigo interessante sobre o assunto:

Tragam de volta o shiiii das bibliotecárias:  http://morenobarros.com/2013/02/tragam-de-volta-o-shiiiiii-das-bibliotecarias-silencio/

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7 Responses to O silêncio

  1. Karen Drago disse:

    Bibliotecas não são sagradas, bibliotecas não são ambientes de silêncio (tenha uma sala de estudos se quiser isso)… e estúpido aquele que acha que falar de assuntos aleatórios não é troca de nada. É, no mínimo, convivência que ajuda (e muito) na troca de experiências e conhecimento. Se atualizem. To com o Augusto!

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  2. Sem contar que atender celular, fofocar com as amigas, não é troca de informação, conhecimento nem material de pesquisa, não é mesmo?

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  3. Augusto, quero acreditar que não li o seu comentário! Se li, quero acreditar que não o entendi… É isso mesmo? Vc acha que o texto do Arnaldo Antunes é um retrocesso e não uma crítica à essa “informação” toda? Volta lá e leia-o mais umas dez vezes, se não for suficiente, leia mais dez, e mais dez, e mais dez… até vc entendê-lo…

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  4. Alexandre disse:

    Troca de informação com risadinhas altas, celular tocando, conversas no celular, invadindo o direito do outro (do silêncio) num ambiente onde o silêncio é ouro. A troca de informação não precisa de barulho. Falar baixo mais do que suficiente, mostra EDUCAÇÃO. Existe lei municipal que proíbe uso de celulares em bibliotecas, passível de multa. Retroceder é não reconhecer o direito do outro, atitude selvagem, anterior ao silêncio.

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  5. Júlio Neto disse:

    Conheça a solução para o EXCESSO DE BARULHO em bibliotecas

    atenção vídeo / audio
    —> http://www.youtube.com/watch?v=s0tF5yOgpxw

    http://www.sensonore.blogspot.com.br

    http://www.sensonore.com.br

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  6. sbdeca disse:

    Augusto, queremos acreditar que a troca de informações e a convivência agradável sejam possíveis sem fazer muito barulho, para não incomodar a turma que prefere ambientes mais silenciosos para estudar e nos pede para proporcionar isso. Sem conversas em voz alta e celulares tocando, pelo menos.

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  7. Augusto disse:

    Ora, Biblioteca é lugar de conhecimento, trabalho, pesquisa entre outros. Não se pode ficar em silêncio sem troca de informação, é retroceder ao tempo, como diz Arnaldo Antunes.

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