Filmes proibidos

Quem viveu na época da censura durante a ditadura jamais vai esquecer como era ser proibido de ler um livro, ver um filme ou uma peça teatral e até de ouvir uma canção. Qual é a sensação de ver o som do microfone de um artista sendo cortado durante um show? Só quem passou por isso sabe como é.

Para quem felizmente nunca passou, fizemos um pequeno apanhado de filmes que foram proibidos, perseguidos, cortados ou mutilados,  aqui e em outros países, hoje tranquilamente disponíveis em nosso acervo.

A inspiração para este post veio da nossa aluna Adriana Neitzel, que sugeriu fazermos algo semelhante à Semana dos Livros Proibidos promovida por bibliotecas, editores, livreiros e jornalistas nos Estados Unidos,  em defesa da liberdade de expressão.

Freaks – 1932 – dir . Tod Browning

Proibido em diversos países, o filme interpretado por artistas de circo com deformidades reais só obteve reconhecimento na década de 1960. Veja o artigo The ethics of Tod Browning´s Freaks.

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Esta noite encarnarei no teu cadáver- 1966  – dir. José Mojica Marins

O clássico de José Mojica Marins foi inicialmente proibido pela censura. De acordo com os censores:

O filme ora examinado focaliza as facetas de um autêntico débil mental que não acreditava na reencarnação […]. O filme é de um mau gosto terrível. Os produtores tentam levar ao público um trabalho do gênero terror, usando e abusando de pancadaria, torturas, sexo e violência extremada. As sequências são desordenadas, indicando a instabilidade de toda a equipe técnica […] Não observamos qualquer mensagem na obra apresentada. O homem sádico não sobre a mínima SANÇÃO [sic] pelas torturas e assassinatos que praticou contra vítimas inocentes (Manoel Felipe de Souza Leão Neto).

O filme deseja, e consegue, impressionar pelas suas cenas de terror, de sadismo sexual, de asco etc, inclusive finalizando com a morte do agente funerário negando a existência de Deus e da religião que procurava, por intermédio de um padre católico, salvar sua alma […] (Constâncio Montebello).

Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor (Jacira Oliveira).

O filme só foi liberado, depois de longa negociação, quando o produtor concordou em trocar o final, inserindo uma fala escrita pelos próprios censores na qual Zé do Caixão se arrepende e reconhece a existência de Deus.

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A mulher de todos (1969) – dir. Rogério Sganzerla

O censor vetou totalmente, considerando que se tratava de “um drama existencialista focalizando a vida desregrada de determinada dama, que, de todas as maneiras, insurge-se contra os padrões morais vigentes, quer pelo seu proceder livre e desenfreado quer pela sua filosofia de viver”.  Curiosamente, o censor parece ter uma pontinha de admiração pela protagonista, não? Ou inveja, quem sabe …

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 O ritual dos sádicos (O despertar da besta) – 1969 – dir. José Mojica Marins

Para o censor que recomendou veto total, o filme era “uma sucessão de fatos e situações, as mais diversas, cuja tônica principal e constante é a amostragem de, além da prática do vício, bacanais, orgias, rituais sado-masoquistas, taras, anormalidades, morbidez, deformações personalísticas dos mais variados calibres, enfim, uma gama infindável de aspectos que caracterizam a total degenerescência humana”.

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Z – 1969 – dir. Costa-Gavras

Baseado num fato verídico ocorrido durante a ditadura militar grega, o filme conta a história de um atentado a um líder oposicionista e suas consequências para o regime. “Qualquer semelhança com pessoas e eventos reais não é mera coincidência, é proposital”, avisa um letreiro no início dos créditos.  Só pôde ser exibido no Brasil em 1980 e quem o assistiu na época deve se lembrar da vibração da plateia nas cenas em que o juiz interpretado por Jean Louis Trintignant interroga e enfurece os militares envolvidos no crime.

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Zabriskie Point – 1970 – dir. Michelangelo Antonioni

Contracultura, crítica ao consumismo, greve estudantil e uma longa cena de sexo grupal no deserto. O filme só foi exibido no Brasil em 1980.

 

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Laranja mecânica (1971) dir. Stanley Kubrick

A censura brasileira foi responsável por uma ação bizarra, que ajudou a ridicularizar a ideia de censura no Brasil: como era impossível cortar as cenas de nudez frontal que os censores não admitiam, o filme foi exibido com bolinhas pretas que tentavam, sem muito sucesso, cobrir as genitálias dos atores. O recurso provocava gargalhadas na plateia, justamente numa das cenas mais violentas e cruéis do filme.

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Como era gostoso o meu francês – 1971 – Nélson Pereira dos Santos

A censura determinou a proibição do filme alegando que “a audiência brasileira não está plenamente preparada para semelhante espetáculo e poderá considerá-lo imoral, exceção feita a poucas plateias dos grandes centros. Daí, este SCDP vetar a sua exibição em todo o território nacional por considerá-lo, do ponto de vista estético, contrário aos princípios de moral e pudor do povo brasileiro”. Posteriormente, com a troca da chefia do Serviço de Censura, o filme foi  liberado.

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O país de São Saruê – 1971- Vladimir Carvalho

Documentário sobre as condições de vida dos lavradores e outros trabalhadores no sertão nordestino, permaneceu proibido por oito anos.  Os censores consideraram que:

“O filme não atende aos interesses nacionais […] atende contra a dignidade e o interesse nacionais ao apresentar, sem que se conheçam seus verdadeiros propósitos,  aspectos da miséria e do subdesenvolvimento do nordeste brasileiro … (Manoel Felipe de Souza Leão Neto).

“Acresce  que esta Seção de Censura tomou conhecimento de que o presente filme está cotado para apresentação nestes próximos dias em um festival internacional, o que viria contribuir para estimular a campanha difamatória que se faz ao Brasil no exterior (Wilson Q. Garcia).

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 Je vous salue Marie – 1984 – dir. Jean-Luc Godard

Proibido depois do fim da censura no Brasil pelo governo de José Sarney, cedendo a pressões da igreja católica.  Foi recentemente divulgado o texto de um telegrama no qual o cantor Roberto Carlos cumprimenta o presidente pela proibição:

“Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme ‘Je Vous Salue’ Marie, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da humanidade. Deus abençoe Vossa Excelência. Roberto Carlos Braga”.

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Com certeza nosso acervo abriga muitos outros filmes que um dia foram proibidos e perseguidos. É só pesquisar e descobrir. Você se lembra de mais algum? Comente aqui e nos ajude a fazer uma lista mais completa.

As informações deste post foram retiradas das seguintes fontes:

Maldito: a vida e o cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, de André Barcinski e Ivan Finotti. 791.430981 M339m

Memória da Censura no Cinema Brasileiro 1964 – 1988  – http://www.memoriacinebr.com.br/

Cinema 7: Especial Filmes Proibidos, parte 2 – http://www.cinema7arte.com.br/2014/08/especial-filmes-proibidos-parte-2.html

Roteiro da intolerância: a censura cinematográfica no Brasil, de Inimá Simões. 791.430981  S593r

 

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3 Responses to Filmes proibidos

  1. Marina Gugliotti Pestana disse:

    Lembrei – me da obra – prima de Bertolucci: O último tango em Paris. Na época ouvi falar que algumas pessoas viajavam para Buenos Aires só para assisti – lo!

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  2. Teresa Silva disse:

    Li não lembro onde que Emanuelle foi tema de uma história inusitada: o filme foi censurado para maiores de 18 anos no pais. Mas a atriz que faz o personagem-título, Sylvia Kristel, foi recebida no Congresso, onde foi organizada uma sessão especial para os congressistas.
    Outro filme que também foi censurado foi O império dos sentidos. Desse eu não sei qual o grau de censura.

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