Luiz Gama

Herói  brasileiro menos conhecido do que deveria ser, Luiz Gama foi um advogado abolicionista, jornalista e poeta, considerado pela profa. Lígia Ferreira a primeira voz negra da literatura brasileira. Sua história é impressionante: filho de uma africana livre com um homem branco, Gama nasceu livre, mas foi vendido pelo próprio pai aos 10 anos de idade. Aos 17 anos aprendeu a ler e reconquistou a liberdade ao conseguir provas de que havia nascido livre.

Autodidata, estudou direito sozinho, provavelmente na biblioteca da Faculdade de Direito da USP, onde não conseguiu se matricular por ser negro. Com o conhecimento adquirido trabalhou como “rábula”-  advogado sem diploma – e teria conseguido libertar mais de 500 escravos.

Em 2015 foi reconhecido simbolicamente como advogado pela Ordem dos Advogados do Brasil, em cerimônia organizada pela Universidade Mackenzie e pelo Instituto Luiz Gama.  A Faculdade de Direito homenageou-o em 2015, batizando com seu nome uma das salas de aula da instituição, honraria normalmente reservada apenas a professores eméritos e titulares da universidade. Além disso, circula entre os ativistas dos direitos humanos na USP a proposta de solicitar para Luiz Gama o título de doutor honoris causa.

Luiz Gama atuou também como jornalista e participou da criação dos jornais O Diabo Coxo e Cabrião (ambos disponíveis em edição facsimilar na Biblioteca da ECA) e publicou, em 1859, a coletânea de poemas Primeiras trovas burlescas.

Em maio deste ano, o Sindicato dos Jornalistas, por meio da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, realizou o Seminário Luiz Gama Jornalista“, destacando o papel pioneiro e a atuação na imprensa do desse abolicionista negro. Na ocasião, foi inaugurada uma placa em homenagem a ele no Auditório Vladimir Herzog.

Por que é importante, no Brasil de hoje, falarmos sobre Luiz Gama? Fizemos essa pergunta à jornalista Cinthia Gomes,  e mestranda do Programa de Ciência da Comunicação da ECA e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Para Cinthia:

Luiz Gama foi um dos principais intelectuais negros do século XIX. Nessa época, já atuava da forma que hoje conhecemos como “multimídia”: tendo se alfabetizado aos 17 anos e se tornado um erudito em áreas como Direito, Política, História, Religião e Filosofia, entre outros temas citados em seus escritos, Gama usou e produziu em todos os campos possíveis das Letras: proferiu discursos, redigiu petições jurídicas, publicou na imprensa, escreveu poesia e registrou diversos fatos históricos em cartas. Pensando especialmente na atuação de Luiz Gama no campo ainda iniciante do jornalismo, ela nos remete a duas questões centrais ainda nos dias de hoje: ética e representação. No entanto, a luta contra os desmandos dos poderosos, a denuncia dos mecanismos pelos quais se perpetuava a escravização ilegal de seres humanos e a defesa dos ideais abolicionistas e republicanos tiveram tiveram um custo. Gama foi perseguido, ameaçado, demitido e morreu pobre. Mas nunca recuou ou mudou de posição, a despeito de toda a pressão exercida pelos opositores. Luiz Gama é, portanto, um referencial de ética no jornalismo, é o exemplo daquele que usa e não é usado pela imprensa. E ele o faz de forma pioneira em sua época: trazendo uma representação inovadora do sujeito negro – que, até então, só aparecia em anúncios de compra, venda, aluguel e fuga de escravos – nos textos que publicava em diversos veículos da imprensa paulista e de outros estados. Em seus escritos, Gama re-humanizava essa figura, entendida pelos valores e pela cultura da época como mercadoria, peça ou coisa, contribuindo para a mudança do imaginário social e desnaturalizando a escravidão. Luiz Gama conquista, assim, o direito à fala e se coloca como uma voz negra que se insurge contra os discursos dominantes, com uma aspiração principal: “uma terra sem rei e sem escravos”.

Gama não conseguiu estudar na USP por ser negro. E hoje, como estamos? Pedimos para Cinthia falar um pouco sobre como é ser um estudante negro nas universidades brasileiras.

Bom, ser uma estudante negra na universidade é, antes de tudo, solitário. Não só na universidade, mas em qualquer espaço de poder e que o acesso seja restrito de alguma forma – financeira ou por um processo seletivo que parece democrático mas que, dadas as desigualdades sociais e raciais, se torna excludente. E mesmo quando a gente consegue furar os bloqueios e se inserir nesses espaços, não dominamos os códigos, os acordos velados, as sutilezas, as expectativas, a etiqueta. E quem já está acostumado a estar nesses lugares, quando a gente chega, não quer abrir mão dos seus privilégios, não quer ouvir novos argumentos, não quer saber de outro ponto de vista e tem dificuldade de conviver com as diferenças. O estudante negro, quando chega à universidade, já chega mais velho que o branco porque antes precisou garantir a sobrevivência. E provavelmente não vai conseguir ter dedicação exclusiva e se manter apenas com o dinheiro da bolsa de pesquisa, pois em geral não é sustentado pela família, para exemplificar um aspecto prático. Especialmente no ambiente acadêmico, sinto falta – e vários colegas relatam o mesmo – não só de uma bibliografia, mas de uma episteme e de uma metodologia afrocentrada. A academia tem dificuldade em reconhecer que o modelo escolhido e reproduzido até agora representa apenas UMA visão de mundo, e não A visão de mundo e tampouco TODAS as visões de mundo. E eu, particularmente, me sinto muito pouco contemplada por determinados autores e teorias.

Publicamos este texto em homenagem a esse personagem incrível hoje, 21 de junho, seu aniversário de nascimento. Vejam aí algumas fontes de informação para conhecer melhor sua história.

Cabrião : semanário humorístico editado por Ângelo Agostini, Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis 1866-1867 – acervo de periódicos da Biblioteca da ECA – Localização: 000

 

Diabo Coxo (1864-1865)
acervo de periódicos da Biblioteca da ECA – Localização: 000

 

COMPARATO, Fábio Konder. Luiz Gama, contemptor de nossas falsas elites
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142012000200024&lng=pt&tlng=pt

 

FERREIRA, Lígia. Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142007000200021

 

FERREIRA, Lígia. Luiz Gama (1830-1882): etude sur la vie et l’oeuvre d’un noir citoyen, poète et militant de la cause antiesclavagiste au Brésil. Paris, 2001. 4v. Tese (Doutorado) – Universidade de Paris 3 / Sorbonne Nouvelle.
acervo da Biblioteca da FFLCH – Localização: T FERREIRA L.F. V.1/2 2001

 

FERREIRA, Lígia. Com a palavra, Luiz Gama: poemas, artigos, cartas, máximas. São Paulo: Imprensa Oficial, 2011.
disponível na biblioteca da FFLCH – Localização: 869.9103 G176c

 

GAMA, Luiz. Primeiras trovas burlescas de Getulino

 

GELEDÉS

 

HOMENAGEM a Luiz Gama na entrega de título de advogado
https://youtu.be/xUwEAlcvyc4

 

INSTITUTO LUIZ GAMA

 

LITERATURA fundamental 62 – Luiz Gama – Lígia Fonseca Ferreira
https://youtu.be/WqSuNcU2jdA

 

LUIZ Gama: uma voz pela liberdade
https://youtu.be/vbPLOWpDZsA

 

MOLINA, Diego. Luiz Gama: a vida como prova inconcussa da história
http://www.scielo.br/pdf/ea/v32n92/0103-4014-ea-32-92-0147.pdf

 

NAÇÃO | TVE – Luiz Gama – 03/07/2015
https://youtu.be/clNZ-VZ6SXs

 

STUMPF, Lúcia Klück; VELLOZO, Júlio César de Oliveira. “Um retumbante Orfeu de carapinha” no centro de São Paulo: a luta pela construção do monumento a Luiz Gama
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142018000100167&lng=en&tlng=en

 

TEMPO e História – Luís Gama (17/01/16)
https://youtu.be/oWMIsr2Tckk
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