O desafio da diversidade

Comentários misóginos, piadas ofensivas aos homossexuais, uso de termos de origem racista e muitas outras atitudes que há alguns anos eram tidas como “brincadeira” não são mais aceitos no ambiente universitário. A presença de alunos militantes de diversos coletivos, ou simplesmente mais conscientes e politizados, trouxe para as salas de aula, de forma bastante explícita, conflitos que no passado eram silenciados.

Comissões de direitos humanos foram criadas na USP para ajudar a combater o assédio sexual, moral e o racismo na USP e recebem inúmeras denúncias.

E mais: negros e mulheres começaram a questionar a própria bibliografia dos cursos, ainda dominada por referências europeias escritas por autores homens e brancos.

A demanda já começa a chegar às bibliotecas, ainda que de forma relativamente tímida. Na Biblioteca da ECA já recebemos, mais de uma vez, questões como:

  • Como faço para localizar artigos acadêmicos sobre o tema aborto escritos por mulheres nos últimos 5 anos?
  • Dá para localizar obras de autores negros no acervo?

Nenhuma dessas questões pode ser respondida pelas ferramentas que utilizamos nas bibliotecas, porque as informações de raça ou gênero do autor não constam das bases de dados de artigos e nem dos catálogos das bibliotecas. Não é um problema local, restrito à USP, as bibliotecas trabalham com padrões internacionais de metadados e catalogação. É possível mudar? Sim, mas é algo que vai exigir tempo, organização e pressão das bibliotecas, editores, autores, comunidade acadêmica etc. Há outras formas de chegarmos a essa informação? Sim, mas para isso é fundamental que a demanda seja compreendida pelo profissional e as limitações do sistema entendidas pelo pesquisador. Sobretudo, as demandas precisam ser mais frequentes e até mais organizadas. Formuladas por grupos, por exemplo.

Há outras questões desse tipo no nosso universo. O perfil do acervo, por exemplo, que, nas bibliotecas universitárias é definido sobretudo pelos professores. E aqueles que mais indicam material mais influência têm.

Motivados por essas questões, apresentamos ao professor Ricardo Alexino Ferreira a proposta de chamar um debate sobre o tema, como atividade da XXI Semana do Livro e da Biblioteca. O professor abraçou imediatamente a ideia e ajudou a organizá-lo, convidando pesquisadores e especialistas em questões relacionadas à diversidade  étnico-social para falar do assunto.

A mesa-redonda O desafio da diversidade nas bibliotecas: questões metodológicas e culturais aconteceu no dia 24 de outubro, à noite, no auditório Lupe Cotrim da ECA. Resumindo as falas:

O professor Ricardo Alexino, Livre-docente pela Universidade de São Paulo, líder do Grupo de Pesquisa Midialogia Científica e Especializada, idealizador e apresentador do programa “Diversidade em Ciência” da Rádio USP apresentou sua visão de usuário assíduo de bibliotecas, pontuando as questões que mais o incomodam no sistema de classificação e perfil do acervo. O conhecimento como algo ligado ao prestígio em nossa sociedade e a predominância dos autores da Europa e Estados Unidos nos planos de ensino da USP foram alguns dos temas presentes na fala do professor.

Ivan Siqueira, Doutor e Mestre em Letras pela FFLCH/USP, especialista em Música e História da Arte pela Berklee College of Music e membro do Conselho Nacional de Educação (2015-2018), falou sobre o elitismo na origem das bibliotecas públicas e as estratégias para afastar delas a população negra e pobre – a forma de organização complicada foi uma delas. O prof. Ivan também abordou o projeto de reorganização das bibliotecas públicas da Holanda que, diante da queda vertiginosa na frequência, decidiram se reinventar, fizeram extensa pesquisa para identificar as demandas da população e hoje são referência no mundo todo – além de atração turística muito popular.

Biblioteca Pública de Amsterdam – foto de José Estorniolo Filho

Biblioteca Pública de Amsterdam – foto de José Estorniolo Filho

Gean Gonçalves, doutorando (ECA-PPGCom), mestre em Ciências da Comunicação também pela USP, membro do grupo de pesquisa Epistemologia do Diálogo Social  da ECA-USP e pesquisador das Narrativas Jornalísticas e do Ensino de Jornalismo, das Práticas de Respeito e Alteridade com a População LGBT, aos Estudos de Gênero e Sexualidade e a Teoria Queer na Comunicação Social, explicou em detalhes as questões da terminologia, sempre bastante importantes no universo das bibliotecas.

O debate, que teve a mediação da bibliotecária Marina Macambyra, foi importante para marcar o início de uma discussão que merece ser aprofundada e mobilizar o ambiente das bibliotecas da USP.

Nossas bibliotecas são, provavelmente, o maior espaço institucional de encontro das três categorias, depois da sala de aula. Nesse espaço podem ocorrer conflitos e tensões as mais diversas, mas também podem surgir mudanças e coisas boas. Bibliotecas não são estruturas descoladas da sociedade. São parte de um todo, estão sujeitas às mesmas forças que regem o país ou a cidade e não são neutras.

A Holanda tem bibliotecas públicas de excelência porque os profissionais que lá atuam se mobilizaram para torná-las melhores e porque poder público e a população em geral valorizam as bibliotecas.

Nossas bibliotecas, aqui na USP, podem e devem ser um espaço de convivência e diversidade, onde todos sintam-se acolhidos e representados. Num momento em que o ódio e o preconceito ameaçam diversos segmentos da população brasileira, é urgente que essa trincheira seja construída.

Assistam o vídeo neste link: https://youtu.be/AOBKpzhGW9Y

Vejam alguns documentos com informações importantes sobre o tema:

Bibliotec@rios negr@as: ação, pesquisa e atuação política
http://www.crb8.org.br/wp-content/uploads/2017/02/Livro-Bibliotecarios-negros.pdf

Repertório bibliográfico sobre a condição do negro no Brasil
http://bd.camara.gov.br/bd/handle/bdcamara/34741#

Manifesto das Bibliotecas Multiculturais
https://www.ifla.org/node/8976

Uma breve história da homofobia na Classificação Decimal de Dewey
https://medium.com/@mo.re.no/uma-breve-hist%C3%B3ria-da-homofobia-na-classifica%C3%A7%C3%A3o-decimal-de-dewey-e763fb5f77bc

Is your librarian racist?
https://www.citylab.com/equity/2018/01/is-your-librarian-racist/550085/

 

 

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