Qual o impacto de sua pesquisa?

Num momento em que a ciência tem de se deparar de um lado com uma recrudescente movimentação anticiência: atitudes como recusar o uso de máscaras no meio de uma pandemia que se transmite por vias respiratórias ou grupos antivacinas ou terraplanistas, que põem a cara no sol sem nenhum vexame. De outro lado com corte de verbas: agora mesmo, aqui em São Paulo discute-se projeto de lei que retira verba das três universidades estaduais e da Fapesp, ou a Capes, que corta bolsas das regiões mais pobres.

Nesse momento em que a importância da ciência precisa ser reafirmada, a altmetria pode ajudar a mostrar qual o impacto da ciência fora da academia. A altmetria (métricas alternativas) entende que pesquisadores estão migrando parte de seu trabalho para a web, seja pelo uso de gerenciadores de referência, como Mendeley, seja usando as redes sociais acadêmicas como ResearchGate, Academia.edu, ou mesmo redes sociais, como Twitter. Portanto, para saber o real impacto dos produtos científicos, acompanhar a repercussão das pesquisas nessas mídias sociais é importante.

são feitas cerca de 44 mil menções a artigos científicos na rede todos os dias (uma menção a cada dois segundos) e, pelo menos 50 mil artigos são compartilhados por semana *

As métricas convencionais (Índice H, Fator de impacto etc.) levam em conta principalmente o número de citações que periódicos e artigos recebem em outros artigos, considerando assim o impacto apenas no meio científico e as citações normalmente levam meses, anos para aparecer e se acumular.

Além disso, as métricas convencionais têm sido objeto de bastante controvérsia desde sempre. A Declaration on Research Assessment (DORA), por exemplo, pede que se leve em conta nas avaliações o conteúdo dos produtos científicos, não o periódico em que foi publicado. A crítica aqui é principalmente ao Fator de Impacto, métrica que foca no periódico, aliás criada originalmente para ajudar bibliotecários a identificar que periódicos valem a pena assinar.

Algumas das críticas feitas às métricas convencionais continuam válidas em relação à altmetria, como por exemplo, a possibilidade de manipulação dos dados:

Um dos riscos mencionados na literatura diz respeito à possibilidade de manipulação dos dados de maneira mais fácil quando comparado aos indicadores bibliométricos e cientométricos. **

À altmetria interessa como se dá a circulação da informação científica em ambientes não acadêmicos, leva em consideração não só a repercussão entre pesquisadores, mas profissionais que atuam nas áreas, estudantes e a parcela da sociedade conectada, faz isso através das citações, compartilhamentos e curtidas em redes sociais, leitura e tagueamento em gerenciadores de referências, redes sociais acadêmicas, sites jornalísticos, olhando assim, não apenas o impacto acadêmico, mas também social. Talvez não seja mera coincidência que o termo altmetrics tenha aparecido pela primeira vez justamente num tweet.

É uma área bastante nova, o tweet acima e o manifesto altmétrico têm apenas 10 anos, ou seja, ainda há muitas perguntas para as quais buscar respostas. Umas das respostas que têm sido buscadas é a relação entre índice altmétrico e número de citações em métricas convencionais. Este artigo encontrou correlação entre repercussão no Twitter e citações em periódicos, mas diz também que “correlação não é causa”. Este outro também sugere uma relação.

O debate em torno da altmetria está sendo feito, mas já faz um tempo que ela vem sendo adotada ao lado das métricas convencionais por bibliotecas digitais, editoras e portais acadêmicos, como Scielo, Nature, Elsevier, para citar alguns.

É preciso estimular o contato da sociedade com a ciência, e a altmetria pode ajudar a entender como isso está acontecendo.

“É questão de realmente entender que, se você é financiado pelo público para fazer sua ciência, também é seu dever, de alguma forma, encontrar uma maneira de divulgá-la ao público, para que desfrute dela.”

Desastres começam com cientistas sendo ignorados
Jornal da USP

* http://www.brapci.inf.br/index.php/res/v/104939.

** https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/30921

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