Descarte ideológico

Em junho passado a Fundação Palmares, “instituição pública voltada para promoção e preservação dos valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”, tornou público o relatório Retrato do Acervo: três décadas de dominação marxista na Fundação Cultural Palmares, no qual diz que “sob o pretexto de defender o negro, [a Fundação] abriga, protege e louva um conjunto de obras pautadas pela revolução sexual, pela sexualização de crianças, pela bandidolatria e por um amplo material de estudo das revoluções marxistas e das técnicas de guerrilha.”

O relatório pretende demonstrar que a Fundação não cumpre sua missão institucional e “foi durante três décadas um braço da militância revolucionária”, e para provar isso fez um “levantamento técnico” do acervo de sua biblioteca, concluindo que o acervo trazia obras em que o “incentivo à delinquência revolucionária e à promiscuidade sexual fossem louváveis”.

O descarte de parte da coleção de uma biblioteca não é algo extraordinário, mas a quantidade e a qualidade dos adjetivos tornou evidente o caráter ideológico do expurgo, remetendo a momentos tristes da história da humanidade. A limpeza pretendida repercutiu, e o processo de doação ou descarte foi suspenso por meio de liminar, depois disso a solução encontrada pelo presidente da fundação foi criar o “acervo da vergonha“, com as obras que seriam expurgadas.

Fonte: https://twitter.com/sergiodireita1/status/1423242882790658055

Na prática e teoria das bibliotecas, esse processo de ‘seleção negativa’ é uma etapa do processo mais amplo de desenvolvimento de coleções, e não é, ou pelo menos não deveria ser um bicho de sete cabeças.

Na teoria, o desbaste do acervo de uma biblioteca, ao eliminar material ‘morto’, deve tornar mais atraentes para os leitores os itens expostos nas estantes, melhorando assim a circulação

Lancaster, F.W. Avaliação de serviços de bibliotecas

Termos como descarte, desbaste (ou desbastamento) são usados para nomear esse processo de selecionar o que será remanejado, enviado para depósito, doado para outras instituições ou mesmo descartado/eliminado.

Nosso professor Waldomiro Vergueiro usa o termo desbastamento.

Isto vai significar muitas coisas: às vezes, a retirada total e definitiva da coleção (o descarte); outras, o deslocamento para locais de menor acesso, onde os materiais serão acomodados mais compactamente a fim de que, embora conservados fisicamente, ocupem o menor espaço possível (o remanejamento); em outras ocasiões, ainda, a retirada do material se dá pela necessidade de recuperá-lo fisicamente, para melhor atendimento à demanda (a conservação).

Neste outro texto, contemporâneo do anterior, descarte é o termo preferido.

descarte: seleção negativa do material bibliográfico existente em uma biblioteca e que não atende mais às necessidades do usuário. Pode resultar em remanejamento, doação ou permuta, venda ou eliminação.

Seja como for, os critérios para que um acervo seja desbastado passam por interesses outros que não a concordância ou não com o conteúdo ideológico das obras. Questões como espaço físico, atualidade da coleção, quantidade de consultas, recursos disponíveis para novas aquisições, pertinência ao acervo etc., são o que realmente importa. Além disso, e nunca é demais lembrar, desenvolvimento de coleções em bibliotecas é um trabalho que só pode ser feito por profissionais com a formação adequada, ou seja, bibliotecários.

Aqui neste blog já falamos sobre nossos critérios de seleção para aquisição ou descarte e sobre doação de material recebido que não nos interessa.

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