“quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha”

12/08/2011
posted by Crenilda Abreu

Escolhi Bang-Bang da lista dos mais vistos semana passada porque é muito curioso que filmes como este integrem esta lista.
Esse é primeiro volume da coleção Cinema Marginal Brasileiro, fruto da Mostra feita em 2001 pelo CCBB e cujo católogo está praticamente todo on-line.
Marginalizados, diretores como Tonacci, Candeias, Bressane e Sganzerla não passavam sequer pela censura, muito menos chegavam ao circuito(exceção pro Bandido da luz vermelha, que chegou a sucesso de bilheteria).

Mas também escolhi porque tem um espírito nos marginais que nunca mais se viu no cinema brasileiro e precisa ser resgatado: fazer cinema a qualquer custo. Para isso ‘Cinema’ teve que deixar de ser questão de custo.

O jeito foi assumir como estética a fatal precariedade de recursos.
Se opondo a um Cinema Novo que começava a ficar ‘bem comportado’, a trupe do Boca de lixo elege o grotesco como sublime, reabilita a chanchada, improviso, vai buscar fazer o ‘Cinema Péssimo’, ideal de Sganzerla pra salvar o cinema nacional. Faz cinema sujo por excelência. CINEMA BOCA DE LIXO.

Escancara a consciência do ‘terceiro mundismo’ esquecida depois do Cinema Novo. Glauber nas alturas, empalhado ao lado de Fellini. Aqui na terra em transe Mojica se virava com as sobras de filmes da moviola de Silvio Renoldi.

E no entanto, ela se move…
Fizeram-se filmes. E filmes como ainda não se tinha feito.

O que resta ao cinema que politicamente enxerga o óbvio, mas que não quer dizer o óbvio, porque não pode e porque nao quer?
A simbologia grassou, tudo são símbolos tudo são referências. Não se diz do modo como se quer porque não se pode, então diz-se do modo como não pode.
O primitivismo das narrativas, o branco e preto estourado, um aparente subdesenvolvimento técnico metáfora(ou paródia) da miséria nacional são opções que compõem a estética anti-apuro-cinema-novista.

Dentro da estética do lixo, a paródia tem um papel estruturalizante. Torna-se um mecanismo de criação. Só que o alvo satírico não era apenas o cinema estrangeiro, como havia sido na chanchada, nos anos 50, mas o respeitável Cinema Novo. Claro que o fato deste ter se tornado alvo de torpedos indicava seu triunfo nacional e internacional. Mas, para o Udigrúdi, o Cinema Novo havia se aburguesado, virado mercadoria respeitável, cauteloso em relação aos temas tratados e à experimentação com a linguagem cinematográfica. Enquanto o Cinema Novo buscava um esquema de produção maior, calcado em melhor acabamento técnico, este Novo Cinema Novo exigia a radicalização da estética da fome, rejeitando um “cinema bem feito” em favor da “tela suja” da “estética do lixo”. Seria um estilo mais apropriado a um país pós-colonial, que transitava entre os detritos da dominação capitalista do Primeiro Mundo.

A hostilidade ao Cinema Novo pelo Cinema Marginal acabou por ressuscitar certos códigos da chanchada – desconsiderada pelos diretores do Cinema Novo. Talvez um questionamento consciente ao que era exaltado por este: a busca intelectualizada dos valores nacionais da alta cultura literária, como Vidas secas, de Graciliano Ramos, ou Menino de engenho, de José Lins do Rego. Não escapou também desse crivo o visual meio documental europeu, em preto e branco, câmera na mão, montagem elíptica, cheia de jump-cuts, como em Godard, Lindsay Anderson, Karel Reisz, Bertolucci ou Pasolini. Nem tampouco o estilo frio e distanciado de Antonioni – utopia máxima do cinema militante e socialmente consciente. Para o Udigrúdi, os pingos nos iis são colocados na declaração anárquica de que “quando você não pode mudar, você avacalha”, no dizer do tal Bandido da luz vermelha. João Luiz Vieira, In: Lixo, marginais e chanchada

Bang-Bang é avacalhação das mais conscientes.  Consciente de que a personagem-padrão,  hollywoodiana, à imagem do burgês-médio está cheia. Suas entranhas são até a última tripa  o que tem de mais banal e reconhecível, não sobra espaçozinho pra contribuição de quem vê. Não há o que projetar, está tudo posto tudo dito com pormenores.  Bang-Bang  é tentativa de brincar com essa inércia: quem sair aturdido da sala escura é mulher do padre.

” de  fato não é possível manter uma lógica, você é obrigado a projetar um sentido pra que aquela história continue. Então, na verdade,  o vazio do personagem é tudo aquilo que você não põe no personagem que não se conseguiu projetar nele. Se você fica neutro diante de um simbolo, tá faltando alguma coisa que não tá na ausência de sentido do símbolo, mas na ausencia da tua capacidade de projetar em cima do simbolo”  Andrea Tonacci

O ilusionismo de Tonacci vai longe. Difícil acreditar, mas Bang bang  foi rodado na Belo Horizonte dos anos 70.

É impressionante que o filme tenha como parte dominante de seu “cenário” a provinciana Belo Horizonte dos anos 1960-70. O modo como Tonacci transforma essa cidade num dos ambientes do cinema moderno brasileiro é um verdadeiro tour de force. Filme construído nos planos, mais que na montagem e no enredo, Bang bang destina à câmera uma autonomia explosiva. A segurança com que ela percorre ruas, invade interiores, segue personagens e também afronta estaticamente a cena é muito, muito humilhante para diretores medianos, que ficam a elucubrar, por minutos, se passam ou não do plano médio para o plano geral. Alcino Leite Neto

O Bandido e Bang bang têm em comum o uso subversivo das técnicas cinematográficas, travellings, o plano sequência, e principalmente o explícito embaralhamento da montagem.

Sobre a composição técnica em Bang bang, a fala de Ismail Xavier na Mostra Cinema Marginal desmistifica a idéia de falta de técnica entre os marginais:

é o filme mais rigoroso do ponto de vista formal. Trabalha a ruptura bastante radical das convenções, mas trabalha essa ruptura deixando muito claro o domínio dos instrumentos, seja na utilização de câmera,  naquilo que significa enquadramento, na composição do quadro não só nos limites mas naquilo que se põe em foco, a rotagem , a relação imagem e som, a justaposição e a recusa de trabalhar com a narrativa ‘começo, meio e fim’.

“Eu não tenho nada a ver com isso”

Veja o  trecho inicial dos extras do DVD,  palestra de Ismail Xavier sobre Bang-bang.

Material Consultado:

Livro: Cinema de Invenção (primeira edição da Max Limonad, em 1986, reeditado pela Limiar, em 2000) de Jairo Ferreira.


Em Cinema de Invenção  Jairo Ferreira faz a crônica da Boca em dialeto marginal. A reunião de textos críticos dos jornais da época é o ponto forte do livro.

O Cinema Marginal Revisitado, ou o avesso dos anos 90 – Ismail Xavier

http://dc136.4shared.com/img/jftJ5_a9/preview.html

O site da Hecho tem o material organizado por Eugênio Puppo e Vera Haddad para o catálogo do CCBB “Cinema Marginal e suas fronteiras”. coleção cinema marginal Brasileiro

http://www.heco.com.br/marginal/01.php

http://vimeo.com/7104077

O Blog ‘ cinema de invenção’ tem uma porrada de textos de Jairo Ferreira :

http://cinema-de-invencao.blogspot.com/2007/04/entrevista-com-jairo-ferreira.html

Ainda sobre Jairo:

http://www.ufscar.br/rua/site/?p=2682

http://www.contracampo.com.br/80/livrojairo.htm

Sobre Bang bang:

http://www.contracampo.com.br/79/artbangbang.htm

O cinema marginal no acervo da Eca:

Gamal, o delírio do sexo(1969)  ANDRADE, João Batista de

Meteorango Kid: o herói intergaláctico(1969) OLIVEIRA, André Luiz

de Andréa Tonacci

Olho por olho(1966),
Blá, blá, bla(1968)
Bang bang

de Júlio Bressane
Cara a cara(1968)
A famíla do barulho(1970) Júlio Bressane
Matou a família e foi ao cinema(1969)
O anjo nasceu(1969)

de Rogério Sanganzerla
A mulher de todos (1969)
O bandido da luz vermelha(1968)
Horror Palace Hotel,ou O gênio total, feito em parceria com Jairo Ferreira é de 1978, portanto não faz parte da cronologia do cinema marginal(1968-73).

de  Ozualdo Candeias
Meu nome é Tonho(1969)
Uma rua chamada Triumpho(1971),
A herança(1971),

Zézero(1974) : posterior ao cinema marginal(68-73) propriamente dito mas considerado por Jairo Ferreira junto com O candinho(1976), seu melhor filme

de Ozualdo falta no acervo A margem, considerado filme inaugural dos marginais.


Cut-up filmes (W.S.Burroughs e Antony Balch)

09/06/2011
por Crenilda Abreu

Este DVD traz cinco títulos “The cut-ups(1966)” , “Ghost at n. 9(Paris)(1963-1972)” Towers open fire(1963)” e Bill & Tonny (1972) “William buys a Parrot(1963)” frutos da parceria de Burroughs e Balch usando o método cut up no cinema.

O mais velho representante da geração beat americana, Burroughs descobriu o cut-up em 1959 em Paris através de seu amigo e pintor Brion Gysin.
Quando Gysin começou experimentar Cut-ups em seus trabalhos, Burroughs imediatamente viu a semelhança desse método com as ‘justaposições’ usadas por ele em seu livro “Naked Lunch”. Em 1960 ele publicou essas primeiras experiências com Cut-ups no livro “Minutes to go” (em parceria com Gysin, Sinclair Beiles e Gregory Corso).
Burroughs e Gysin se engajaram nos experimentos com Cut-ups em vários meios. Balch estava familiarizado com o texto fragmentado de Burroughs e a idéia do Cut-up o instigou a procurar o equivalente no cinema.
O primeiro desses filmes-experimento foi Towers Open Fire, colagem dos principais temas e situações presentes nas Cut-ups novels feitas por Burroughs.

O Método cut-up por William Burroughs

No verão de 50 Brian Gysin, pintor e escritor, cortou artigos de jornal em partes e rearranjou os pedaços ao acaso.

‘Minutes to go’ é o resultado desse primeiro experimento com o cut-up. Esse livro contém cut-ups sem edição,  mantidos inalterados, que surgem como prosa coerente e significativa.

O método cut-up traz a colagem para os escritores, algo já usado pelos pintores há 50 anos. Na verdade, todos os disparos de cameras móveis ou fixas são, pelo imprevisto do que se pode passar e justaposiçoes possíveis , cut-ups.

E um fotógrafo vai lhe dizer que geralmente suas melhores fotos são acidentes…e os escritores dirão o mesmo.

Os melhores textos parecem surgir quase por acidente, mas até que o metodo cut-up fosse descoberto (Todo escrito é na verdade cut-up, vou voltar nesse ponto) os escritores não tinham jeito de produzir o acidente da espontaneidade . Voce não pode dispor da espontaneidade. Mas pode introduzir o fator da imprevisibilidade espontanea com uma tesoura.

O método é simples. Eis um jeito. Pegue uma página. Como esta por exemplo. Agora corte ao meio e depois de novo. Você tem 4 partes: 1, 2, 3, 4 … uma duas três quatro. Agora rerranje os pedaços colancando o ultimo com o primeiro e o segundo com o terceiro. E tem-se uma nova página.

Às vezes diz quase a mesma coisa. Às vezes algo totalmente diferente — (recortar um discurso político é um exercicio interessante).

Em todo caso você vai ver que diz alguma coisa e algo bem definido. Pegue um poeta, ou escritor que gostar. Anedotas, ou poemas que já tenha ouvido muitas vezes.

As palavras perderam significado e vida pelos anos de repetição. Agora pegue o poema selecione e copie passagens. Encha a página de trechos. Agora recorte a página. Você terá um novo poema. Quantos quizer.

Os Shakespeare’s e Rimbaud’s que quizer. Tristan Tzara disse: “Poesia para todos”, André Breton o chamou de polícia e o expulsou do movimento. Diga isso de novo: “Poesia é para todos”. Poesia é um lugar e aberto a todos os cut ups de Rimbaud, e você esta no espaço de Rimbaud. Eis um cut up de Rimbaud:

“Visit of memories. Only your dance and your voice house. On the suburban air improbable desertions . . . all harmonic pine for strife. “The great skies are open. Candor of vapor and tent spitting blood laugh and drunken penance.

Promenade of wine perfume opens slow bottle. “The great skies are open. Supreme bugle burning flesh children to mist.”

Cut-ups são para todos. Qualquer um pode fazer cut-ups. É experimental no sentido de ser algo pra se fazer. Right here write now. Não uma coisa de que se fale ou investigue.

Os filosofos gregos assumiram logicamente que um objeto duas vezes mais pesado que outro cairia duas vezes mais rapido. Não lhes ocorreu colocar os dois numa mesa e ver como caiam.

Recorte as palavras e veja como caem.

Shakespeare, Rimbaud estão vivos em suas palavras. Recorte as linhas e vai ouvir suas vozes. Cut ups costumam vir como mensagens codificadas com significado especial para quem corta.  Mesa-branca, mediunismo? Talvez. Certamente um salto na performance deplorável como se vê um poeta na mídia. Rimbaud surgiu e foi seguido por alguns poetas sofrivelmente ruims. Recortando Rimbaud pode-se ter a certeza de boa poesia, ainda que sem toque pessoal.

Todo texto é na verdade cut up. Colagem de palavras lidas ouvidas encabeçadas. Que mais? Usar a tesoura torna o processo aberto e matéria de expansão e variações. A prosa clássica, clara, pode ser toda composta pelo rearranjo de cut- ups.

Cortar e rearranjar uma página traz uma nova dimensão pra escrita, deixa o escritor tranformar imagens em variação cineramica .

Imagens ganham sentido por meio de uma tesoura, cheiram imagens pelo som visto pelo som ouvido pela cinestética.
Era ai que Rimbaud queria chegar com suas vogais coloridas. E seu ‘sitemático desarranjo dos sentidos’. O lugar de alucinaçoes, mescalina : ver cores provar os sons e cheirar formas.
Os cut-ups podem ser aplicados a outros lugares além de textos. Dr. Newman no seu “Theory of games and economic behavior” introduziu o metodo cut-up de açoes aleatorias num jogo e na estratégia militar: assumindo que o pior aconteceu e agindo de acordo. Se essa estratégia é de alguma forma descoberta… por causa da aleatoriedade o seu oponente nao terá qualquer vantagem em saber dela, já que não poderá prever o proximo passo.
O método cut up pode ser usado com vantagem no campo cientifico. Quantas descobertas não foram meros acidentes? Não se pode produzir acidentes pela ordem.
Os cut-ups trazem uma nova dimensão para os filmes. Recortar ao azar milhares de cenas ao azar dos lugares e tempos. Cortar pra trás. Cortar ruas do mundo todo.
Cortar e rearranjar o mundo e as imagens nos filmes.
Não tem porque aceitar o recauchutado quando se pode ter o melhor em primeira mão. E o melhor está ai, pra todos. “Poesia é pra todo mundo”…

Burrougs transcreveu ao fim do texto o cut-up do paragrafo anterior recortado em quatro partes e rearranjado.

ALL WRITING IS IN FACT CUT UPS OF GAMES AND ECONOMIC BEHAVIOR OVERHEARD? WHAT ELSE? ASSUME THAT THE WORST HAS HAPPENED EXPLICIT AND SUBJECT TO STRATEGY IS AT SOME POINT CLASSICAL PROSE. CUTTING AND REARRANGING FACTOR YOUR OPPONENT WILL GAIN INTRODUCES A NEW DIMENSION YOUR STRATEGY. HOW MANY DISCOVERIES SOUND TO KINESTHETIC? WE CAN NOW PRODUCE ACCIDENT TO HIS COLOR OF VOWELS. AND NEW DIMENSION TO FILMS CUT THE SENSES. THE PLACE OF SAND. GAMBLING SCENES ALL TIMES COLORS TASTING SOUNDS SMELL STREETS OF THE WORLD. WHEN YOU CAN HAVE THE BET ALL: “POETRY IS FOR EVERYONE” DOCTOR NEUMAN IN A COLLAGE OF WORDS READ HEARD INTRODUCED THE CUT UP SCISSORS RENDERS THE PROCESS GAME AND MILITARY STRATEGY, VARIATION CLEAR AND ACT ACCORDINGLY. IF YOU POSED ENTIRELY OF REARRANGED CUT DETERMINED BY RANDOM A PAGE OF WRITTEN WORDS NO ADVANTAGE FROM KNOWING INTO WRITER PREDICT THE MOVE. THE CUT VARIATION IMAGES SHIFT SENSE ADVANTAGE IN PROCESSING TO SOUND SIGHT TO SOUND. HAVE BEEN MADE BY ACCIDENT IS WHERE RIMBAUD WAS GOING WITH ORDER THE CUT UPS COULD “SYSTEMATIC DERANGEMENT” OF THE GAMBLING SCENE IN WITH A TEA HALLUCINATION: SEEING AND PLACES. CUT BACK. CUT FORMS. REARRANGE THE WORD AND IMAGE TO OTHER FIELDS THAN WRITING.

Informações Técnicas:

Extras: curta That-Fal’N (EUA, 1978 – 9min, dir. Stan Brakhage)

O método cut-up por William Burroughs

1. William buys a parrot (EUA, 1963, Cor, 1′)
2. Towers open fire (ING, 1963, P&B, 9′)
3. The Cut-ups (ING, 1966, P&B, 19′)
4. Ghost at nº 9 (Paris) (ING, 1963-1972, P&B/Cor, 43′)
5. Bill & Tonny (ING, 1972, Cor, 5′)

A biblioteca possui três cópias desse dvd,  dois podem ser emprestados: DVD1398, DVD1473

Fontes:
http://www.brightlightsfilm.com/39/cutups1.php

http://languageisavirus.com/articles/articles.php?subaction=showcomments&id=1099111044&archive=&start_from=&ucat=

texto usado na tradução:
http://writing.upenn.edu/~afilreis/88v/burroughs-cutup.html


%d blogueiros gostam disto: