Lycia de Biase Bidart, uma compositora brasileira

11/01/2021

[atualização: 8.3.2021] *

por Nicole Manzoni Garcia

Lycia Vivacqua de Biase nasceu dia 18 de fevereiro de 1910 em Muniz Freire (ES) e logo sua família se mudou para a capital do estado, Vitória.

Lycia de Biase Bidart (Programa de concerto, 1933)

Iniciou os estudos de piano aos sete anos como uma forma de desenvolver sua concentração. A partir da adolescência, devido ao seu possível déficit de atenção, Lycia parou de frequentar a escola e passou a ter aulas domiciliares com professores contratados para matérias obrigatórias e para a música.

Em 1927, Lycia teve a sua primeira estreia musical registrada em documentos. A composição Ave Maria (1927), para soprano e piano/órgão, foi estreada na Igreja Nossa Senhora da Lapa, no Rio de Janeiro. A peça é a primeira da compositora registrada em catálogos, sendo possivelmente, além de sua primeira estreia, uma de suas primeiras composições. Ao longo de toda a sua vida, ela seguiu o catolicismo rigorosamente e isso se reflete em parte de sua produção, como nesse título.

Lycia se mudou, perto dos 18 anos, para a casa de uma tia no Rio de Janeiro para aprofundar seus estudos na música. Na cidade iniciou suas aulas de composição e regência com o maestro Giovanni Giannetti e, em paralelo, aulas de piano e violino com outros professores. Giannetti participou ativamente do início da vida musical de Lycia, orientando-a em suas composições e regendo várias de suas estreias.

Entre 1930 e 1934, Lycia teve cinco concertos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro que foram anunciados em jornais. Seu pai, em alguns desses concertos, alugou o Theatro e a orquestra para que ela pudesse realizar as suas estreias.
Em 1932 foi a estreia da sua composição mais aclamada e elogiada por jornais na época, Chanaan (1932), regida por Giovanni Giannetti. O poema sinfônico foi inspirado no romance de Graça Aranha, Canaã, que tem como cenário o Vale de Canaã, situado no Espírito Santo. Lycia, em sua composição, conta a história da conquista do vale. No ano seguinte, o poema sinfônico foi executado novamente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, dessa vez regido pela própria compositora. 

Lycia em frente à orquestra na noite de estreia das composições Anchieta e Angelus (Revista Fon Fon, 1934)


Lycia casou-se com o engenheiro João Baptista Bidart em 1933 e tiveram sua primeira filha em 1935, Cecilia, que recebeu esse nome em homenagem à padroeira da música. Lucia, sua segunda filha, nasceu em 1937. Nos primeiros anos de suas filhas, Lycia parou de aparecer nos jornais, não realizando grandes concertos nem estreias. Nessa época, sua produção composicional também diminuiu comparada aos outros períodos. A compositora era extremamente dedicada à família e isso se reflete em suas composições.

João Bidart, Lucia, Cecilia e Lycia (arquivo familiar)


Entre 1945 e 1949 teve aulas com Neusa França e Magdalena Tagliaferro para aperfeiçoar a técnica pianística.
Em 1953, no Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, aconteceu um concerto para piano e voz apenas com as composições de Lycia. Dentre outras foram executadas as peças: Desejo (1947), para soprano e piano; O beijo (1953), para mezzosoprano e piano; e Noite em Salamanca (1950), para dois pianos.


Lycia costumava fazer suas composições em uma mesa ao lado do piano. Seu processo composicional era muito mais mental do que prático no instrumento. Ela costumava escrever fazendo boccachiusa e, às vezes, experimentava no piano. A maior parte de suas composições utilizava elementos da natureza, poemas e pessoas como inspiração.


A compositora manteve amizades com músicos como o saxofonista Juarez Araújo e o maestro John Neschling, que estreou uma de suas composições, Adagio Improviso, tocado pela Orquestra de Câmara do Rio de Janeiro, em 1971, na Sala Cecília Meireles. Entre 1972 e 1986, Lycia também trocou cartas com o escritor Carlos Drummond de Andrade, em sua maioria pedindo autorizações para musicar os seus poemas.


Em 1975, Lycia ganhou uma menção honrosa no XX Concorso Internazionale di Musica Giovan Battista Viotti, na Itália, com a Sonata Fantasia nº1: Sonata ao Mar (1961).


Após os 60 anos, Lycia começou a perder a audição progressivamente. No início da década de 1980, ela teve uma séria meningite que intensificou essa perda da audição. Porém, mesmo com a perda parcial da audição, Lycia compôs até o final da sua vida. Faleceu aos 81 anos, dia 10 de julho de 1991, no Rio de Janeiro.


Em junho de 1989, Lycia doou a maior parte das suas composições para a Biblioteca da Escola de Comunicação e Artes (ECA), junto com uma carta formalizando a doação. O acervo contém mais de 400 composições, entre manuscritos originais e cópias, das mais variadas formações instrumentais e está aberto ao público para consulta no local.


Nos últimos anos mais pesquisadores têm se interessado pela obra da compositora e procurado a biblioteca para acessar o acervo. Esse recente interesse motivou a Biblioteca a iniciar um projeto de digitalização da obra completa, que será executado em breve e facilitará o acesso de partituras por compositores e instrumentistas que tenham o interesse em estudar o acervo.


Nicole Manzoni Garcia é Mestranda em Musicologia: Documentação e História da Música (UNIRIO).  Este texto é uma redução, preparada especialmente para este blog pela autora, do artigo publicado no 6º Congresso Nas Nuvens. Disponível em:  https://musica.ufmg.br/nasnuvens/wp-content/uploads/2020/12/2020-GARCIA-Nicole-Manzoni.pdf

Vejam, também, este vídeo sobre a vida e a obra da compositora, no qual Nicole apresenta ao piano uma de suas composições. 

 

* a foto publicada anteriormente não era de Lycia de Biase, mas de uma de suas filhas. O erro foi corrigido.


Acervo de Partituras “Lycia De Biase Bidart”

12/02/2010

Em 1989, ao completar 79 anos, a compositora brasileira Lycia De Biase Bidart doou toda a sua obra musical à Biblioteca da ECA: cerca de 400 partituras, a maioria delas manuscritos autografados. O material está à disposição dos usuários da Biblioteca e outros pesquisadores interessados na Seção de Multimeios, para consulta. Do acervo constam obras para orquestra, coro, conjuntos de câmara, voz e instrumentos solistas como piano, harpa e órgão.

Lycia nasceu em Vitória (Espírito Santo), em 18 de fevereiro de 1910. Estudou piano com Magdalena Tagliaferro e Harmonia e composição com Giovanni Giannetti. Foi diretora artística do Curso Santa Rosa de Lima de 1941 a 1945, e teve sua obra Sonata ao mar (1961)  premiada no Concurso Internacional de Música Viotti, realizado anualmente em Vercellli (Itália).

A compositora não fez restrições de acesso às partituras doadas, que podem ser consultadas na Biblioteca ou copiadas, com exceção daquelas cujo estado de conservação inspira cuidados, ou das obras cuja reprodução não foi autorizada pelo autor do texto.

Lista das partituras: http://www.rebeca.eca.usp.br/lycia.pdf

 

Lycia De Biase Bidart (1910-1992)

 

 

 

 

Carta de doação

 

As informações biográficas sobre Lycia de Biase Bidart foram extraídas do verbete a ela dedicado no Grove Music Online, disponível no portal da CAPES:

http://novo.periodicos.capes.gov.br/


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