Gastando o latim

16/11/2020

As normas de referência, e principalmente a de citações, da Associação Brasileira de Normas Técnicas recomendam o uso de algumas expressões e palavras em latim, para evitar que a leitura das citações se torne repetitiva, ou quando não se consegue precisar alguma informação, no caso das referências.

O latim dá voz ao que chegou até nós da cultura clássica, cultura da qual o ocidente é devedor. Expressões como status quo, causa mortis, habeas corpus e tantas outras fazem parte do vocabulário de muita gente; em áreas como direito e na nomenclatura científica, a presença do latim é ainda mais evidente.

É certo que às vezes é usado com algum pedantismo ou como marca de distinção social, o que não é de hoje:

Para as elites, o mundo clássico, antes símbolo máximo do status e da pertença de classe, foi relegado nem tanto ao esquecimento, como à denegação: cheirava a mofo e a uma visão de mundo a ser superada.

O resultado é que o latim deixou de ser obrigatório em nossas escolas de ensino fundamental e médio ainda na década de 1950. Mas como está na base de algumas das línguas mais faladas hoje no mundo e dá voz à Antiguidade Clássica, permanece.

Nas citações em documentos (ABNT NBR 10520) as expressões e palavras são recomendadas para evitar repetição nas notas de referência no rodapé, ou seja, a primeira citação em nota de rodapé deve ter sua referência completa, só então você vai ter que gastar o latim. Para tornar as coisas um pouco mais difíceis, é comum que se usem tais expressões abreviadas.

Idem – mesmo autor – Id.
SOUZA, 1990, p. 51.
Id., 2018, p. 17.
Ibidem – na mesma obra – Ibid.
DURKHEIM, 1925, p. 176
Ibid., p. 190.
Opus citatum, opere citato – obra citada – op. cit.
ADORNO, 1996, p. 38.
GARLAND, 1990, p. 42-43.
ADORNO, op. cit., p. 40
Passim – aqui e ali, em diversas passagens – passim
RIBEIRO, 1997, passim
Loco citato – no lugar citado – loc. cit.
TOMASELLI; PORTER, 1992, p.33-46
TOMASELLI; PORTER, loc. cit.
Confira, confronte – Cf.
Cf. CALDEIRA, 1992
Bom, essa daqui não é latim no sentido que estamos usando aqui, mas de onde você acha que vieram as duas palavras aí?
Sequentia – seguinte ou que segue – et. seq.
FOUCAULT, 1994, p. 17 et seq.

Idem, ibidem, opus citatum “só podem ser usadas na mesma página ou folha da citação a que se referem.”

Apud – citado por, conforme, segundo
EVANS, 1987 apud SAGE, 1992, p. 2-3

Agora um pouco de controvérsia. Diferentemente das outras expressões, essa também pode ser usada no texto, não apenas no rodapé. Usa-se essa expressão para indicar que se está citando uma citação direta ou indireta, ou seja, você não teve acesso ao documento original, e aqui entra a parte da controvérsia. No exemplo acima você estaria assumindo que a leitura ou interpretação que Sage fez de Evans, é correta, sem vieses ou ruídos. Lembram daquela brincadeira infantil do telefone sem fio?

A ABNT não diz para evitar o uso dessa expressão, no entanto a pesquisa científica é um trabalho de investigação, e se é possível encontrar o original numa biblioteca ou numa das várias bases de dados, não tem desculpa para não ir atrás do original. Veja o que diz esse editorial da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental.

No caso das referências (ABNT NBR 6023), normalmente as expressões latinas aparecem quando não se pode oferecer a informação completa, seja para resumir uma lista de autores extensa, seja porque os dados não foram fornecidos

et alii – e outros – et. al.
URANI, A. et al.
Para mais de três autores. Recomenda-se indicar todos, mas não sendo possível usa-se como no exemplo acima.
sine nomine – sem nome (da editora) – [S. n.]
FRANCO, I. Discursos: de outubro de 1992 a agosto de 1993. Brasília, DF: [s. n.], 1993. 107 p.
sine loco – sem local (de publicação) – [s. l.]
KRIEGER, Gustavo; NOVAES, Luís Antonio; FARIA, Tales. Todos os sócios do presidente. 3. ed. [S. l.]: Scritta, 1992. 195 p.
circa – por volta de – ca.
ca. 1950
ano de publicação aproximado

Seja em áreas como direito, ou na nomenclatura científica, o latim se faz presente bem mais do que como nota de rodapé

As citações acima e os exemplos usados vieram das normas da ABNT NBR 6023 e NBR 10520 e do livro O latim hoje, organizado por Patrícia Prata e Fábio Fortes


Normalização de trabalhos acadêmicos

23/11/2015

Uma etapa obrigatória de boa parte dos cursos de graduação e pós-graduação é a elaboração de um trabalho escrito, que deve seguir regras de apresentação e formatação indicadas pela instituição. No caso da ECA, o trabalho deve ser feito segundo as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Essas normas têm por objetivo facilitar a comunicação científica, pois possibilitam a identificação (e a verificação da informação) de cada documento consultado e citado durante a feitura do trabalho.

No entanto, esta é uma tarefa meio árida, às vezes trabalhosa, não por outro motivo, é deixada para o final ou encarregada a terceiros, gente especializada nesse tipo de trabalho.

Hoje, porém, há ferramentas que prometem facilitar essa etapa da pesquisa científica.

Há softwares gratuitos, como o Monografando, que prometem “facilitar a vida de quem está fazendo o seu trabalho de conclusão de curso ou a sua monografia”.

Há os gerenciadores de referências, que criam de forma automática a lista de referências e as citações no momento da escrita do trabalho, no estilo de citação escolhido. São fáceis de usar e aqui na Biblioteca da ECA ainda oferecemos uma ajudinha, pois quem quiser aprender a usar o EndNote Basic, um dos mais populares desses programas, pode agendar um horário com a gente, por aqui http://www3.eca.usp.br/biblioteca/servicos/treinamentos

Quinn Dombrowski

Foto: Quinn Dombrowski, Flickr

Os bibliotecários estão atentos a essa necessidade dos pesquisadores. Em nosso blog, por exemplo, os posts que ensinam a fazer citações e referências de filmes e músicas estão entre os mais lidos.

O Sistema Integrado de Bibliotecas da USP preparou as Diretrizes para apresentação de dissertações e teses da USP, “com o objetivo de auxiliar a estruturação e organização dos textos”. São orientações que têm por base as normas da ABNT que tratam de trabalhos acadêmicos. O documento também está disponível para download segundo as normas da American Psychological Association (APA), International Organization for Standardization (ISO) e o estilo Vancouver.

A USP oferece acesso ao Target GEDWeb, que tem em seu acervo as normas da ABNT para trabalhos acadêmicos e várias outras normas do Brasil e do Mercosul. O acesso pode se dar nos computadores da USP ou remotamente via VPN.

Mas, se ainda precisar de ajuda, aqui na Biblioteca da ECA oferecemos, para a comunidade ecana, atendimento para esclarecimentos de dúvidas sobre elaboração de referências bibliográficas e citações. É só aparecer e procurar por um dos bibliotecários do serviço de atendimento.


Minhas citações: acompanhe as citações de suas publicações

13/10/2014

Para possibilitar que os autores acompanhem o alcance de suas produções, o Google Acadêmico dispõe de interessante recurso o Minhas Citações, em que é possível acompanhar as citações de seus artigos, verificando quem cita suas publicações. O Minhas Citações também permite que você visualize gráficos e métricas de citações.

Para usá-lo é preciso criar um perfil no Google acadêmico e, se você desejar, pode torná-lo público. Assim quando alguém pesquisar pelo seu nome no Google acadêmico irá recuperar o seu perfil, que poderá trazer informações como sua titulação, filiação institucional, área de interesse, uma listagem com suas publicações e também uma homepage de sua escolha, que pode ser o link para seu currículo Lattes, por exemplo.

Agora iremos mostrar como criar um perfil no Google acadêmico e utilizar o recurso de monitoramento de citações. Tanto a criação como a manutenção do perfil é bastante simples e rápida. Veja:

 

 


Citando música

01/07/2011

Para a Associação Brasileira de Normas Técnicas, os elementos essenciais da referência de um documento sonoro são: compositor(es) ou intérprete(s), título, local, gravadora ou equivalente, data e especificação do suporte.

Curiosamente, a ABNT indica como essenciais elementos típicos de obras musicais, embora nem todo documento sonoro seja uma gravação de música. Seria mais adequado indicar “autor”, mais genérico do que “compositor”.

Mas vamos começar por um exemplo de disco de música, de um único autor, referenciado com os elementos principais:

BRAHMS, Johann. Songs without words. Intérpretes: Mischa Maisky, Pavel Gilivov.  Hamburg: Deustche Grammophon, c1997. 1 CD.

Neste exemplo, foi necessário buscar algumas informações no rótulo e no encarte do CD: prenome do compositor, local e data. A norma permite que sejam acrescentadas informações complementares, caso seja necessário identificar melhor o documento. Por exemplo:

BRAHMS, Johann. Songs without words. Mischa Maisky, violoncelo; Pavel Gilivov, piano.  Hamburg: Deustche Grammophon, c1997. 1 CD (68 min), DDD.

Embora a ABNT não dê exemplos de música erudita, sugerimos a indicação dos nomes dos intérpretes seguidos pelo instrumento que executam. Nesse caso, não é necessário escrever “intérpretes” antes dos nomes. DDD, AAD e ADD são dados técnicos da gravação.

Neste outro caso, temos o disco de um grupo musical, interpretando peças musicais de vários autores.


VOZ ATIVA MADRIGAL. Dominus: música sacra a capella: composições brasileiras dos séculos XX e XXI. Regente: Ricardo Barbosa. Osasco: Voz Ativa, [200-]. 1 CD.

Usamos como fonte a página de rosto do encarte do CD, por estar mais completa. Tratamos o grupo Voz Ativa Madrigal como responsável principal pelo disco e fizemos a “entrada” pelo seu nome, e acrescentamos o nome do regente. Como não há nenhuma data no disco, registramos a década provável, entre [ ].

Para citar apenas uma faixa desse CD:

RODRIGO, Joaquin. Concierto de Aranjuez. In.: RAFAEL Jiménez guitar. St. Helier: Guild, c2000.  1 CD. Faixas 4-5 (22 min 43).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das grandes dificuldades que temos na referenciação de gravações musicais é a correta identificação dos elementos, em especial autoria e título.

O rótulo do CD e sua capa muitas vezes apresentam esses dados de forma diferente, e nem sempre o encarte tem algo semelhante a uma página de rosto de livro. Às vezes é necessário tomar uma decisão, já que ABNT não dá esse tipo de orientação.

GRADUS AD PARNASSUM. Biber: Missa Alleluya. Schmelzer: Vesperae sollennes. Regência: Konrad Junghänel. [S.l.]: Deutsche Harmonia Mundi, [199-]; [S.l.]: BMG Music, c1995. 1 CD.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Neste exemplo, temos duas obras distintas, a Missa Alleluya de Franz Biber e a Vesperae sollenes de Johann Heinrich Schmelzer interpretadas pelo grupo Gradus ad Parnassum, sob a regência de Konrad Junghänel.

Optamos por fazer a entrada pelo nome do grupo, e registramos como título os nomes dos compositores e suas respectivas obras. Identificamos duas gravadoras, e as registramos conforme a norma prescreve. A abreviatura [S.l.] significa que não consta do disco o local de publicação.

E vamos ver como ficaria a referência de uma gravação cujo conteúdo não é musical:

BBC Brasil. O rádio no Brasil. Narração: Jader de Oliveira. Coordenação original: Luis Alfredo Hablitzel. Londres, 2005. 5 CDs.

Entramos pelo nome da instituição que produziu o trabalho. Como a gravadora é a mesma entidade, não se repete seu nome.


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