Uma coleção muito especial

23/09/2013

O acervo de Coleções Especiais da Biblioteca da ECA é formado por revistas, livros, partituras e histórias em quadrinhos que precisam de medidas diferenciadas de conservação, tendo em vista garantir sua preservação e permanência. Portanto, é guardado em ambiente separado do acervo geral da Biblioteca.

Neste post, iremos falar um pouco sobre a Coleção especial de revistas, composta por publicações seriadas das áreas de Comunicações e Artes tanto de caráter acadêmico quanto popular, revistas de notícias, órgãos da imprensa alternativa das décadas de 1960 e 1970, publicações voltadas para o público feminino, masculino ou infantil, revistas humorísticas etc., em geral difíceis de serem encontradas em outras instituições.

O acervo inclui a coleção quase completa do jornal O Pasquim, com números desde 1969; títulos  Manchete e O Cruzeiro, este com exemplares a partir de 1947; Veja, desde 1968;  Cosmopolitan Nova, com números de 1974;  Opinião e Movimento, dos anos 1970; as revistas de cinema Cinemin e Set; raridades como A Cigarra, A Gazetinha e O Pirralho; além da revista Playboy, incluindo exemplar de 1978.

É crescente o número de pesquisadores que vêm à Biblioteca em busca de títulos desta Coleção por seu valor inestimável como fonte de pesquisa para compreender momentos vivenciados em nossa história.

Uma das publicações mais consultadas é a revista Intervalo (com as edições São Paulo, Rio de Janeiro e Norte/Sul), e o exemplar mais antigo da Coleção é de 1963. Seus fascículos discorrem sobre astros da televisão, comentando a programação dos canais, incluindo seriados estrangeiros, programas humorísticos, telejornais e telenovelas.

Revista Intervalo : (São Paulo), 1969, ano 7, n. 359

Revista Intervalo : (São Paulo).

A revista Cláudia, da qual possuímos exemplar de 1961 – ano do início da publicação -, é outro título bastante procurado por pesquisadores devido ao seu papel revolucionário no segmento de revistas dedicadas ao público feminino.

Revista Claudia, 1988.

Revista Claudia, 1988.

Outro título da coleção, a Pais & Filhos possui exemplares desde 1969, que começam a trazer para os lares brasileiros uma nova  concepção sobre a educação dos filhos, mostrando que a responsabilidade pelas crianças não era exclusivamente da mulher.

Revista Pais e Filhos, 1969.

Revista Pais e Filhos, 1969.

Esta é apenas uma pequena amostra dos títulos que compõem essa Coleção, que preserva momentos da imprensa em nosso país.

Neste link você pode conferir os títulos que compõem a Coleção especial

Caso tenha interesse em consultar o material, agende um horário no telefone 30914071 ou, ainda, por email: ecabiblioteca@usp.br

Dicas:

A Biblioteca Jenny Klabin Segall digitalizou e disponibilizou o acesso online às edições completas das primeiras revistas brasileiras dedicadas ao cinema, A Scena Muda e Cinearte. Confira: http://www.bjksdigital.museusegall.org.br/busca_revistas.html

O site Memória Viva reúne digitalizações de edições de O Cruzeiro, O Pasquim, O Malho, dentre outros. Confira: http://www.memoriaviva.com.br/

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O que dava Manchete

22/04/2013

A revista Manchete aparece nas bancas do Brasil em 26 de abril de 1952, apresenta-se como uma

“revista de atualidades, correta e modernamente impressa. Em todos os números daremos páginas a cores – e faremos o possível para que essas cores se ponham sistematicamente a serviço da beleza do Brasil e das manifestações de seu progresso.”

Nesse momento reinava soberana nas bancas de revistas do Brasil O Cruzeiro, que circulava desde 1928, mas não demorou muito para que Manchete assumisse a dianteira, fez isso aprimorando a qualidade gráfica e recrutando jornalistas diretamente nas bases do inimigo.

Ficou durante quase 20 anos como a revista mais vendida no Brasil, com tiragens médias de 220 mil. Algumas edições atingiram números bem mais expressivos como a que trazia a inauguração de Brasília que vendeu 700 mil exemplares, ou a edição que cobria a visita do Papa João Paulo II em 1980, que teve mais de 2 milhões e meio de exemplares.

Em seu primeiro número a revista fornece pistas eloquentes do recado que daria dali pra frente: mulher bonita na capa, textos curtos, fotos ocupando mais da metade das páginas, certo otimismo dando o tom.

Manchete1

As mulheres das capas são geralmente jovens, brancas e bonitas segundo os padrões da época. Quanto aos homens que aparecem nas capas, bom, esses podem ser velhos, ter rugas, afinal, ao contrário das mulheres, não estão ali para terem seus corpos avaliados.

O espaço privilegiado para fotos foi inspirado em publicações de sucesso naquele momento, como a francesa Paris Match, a americana Life e mesmo O Cruzeiro.  O otimismo dava o tom da revista, percebia-se nos textos, nas fotos, na escolha das pautas. Segundo Carlos Heitor Cony a Manchete “era otimista ao desvario, procurava ver o lado bom de tudo, o lado bonito e positivo”.

Já em seu primeiro número a revista escancara essa escolha editorial:

“O Brasil cresceu muito, suas mil faces reclamam muitas revistas, como a nossa, para espelhá-las. Manchete será o espelho escrupuloso das suas faces positivas, assim como do mundo trepidante em que vivemos e da hora assombrosa que atravessamos.”

Em julho de 2000 circula a última edição da revista, a de nº 2.519. “Nos computadores da Redação já lacrada pelos oficiais de Justiça ficou, intocada e pronta, a edição que jamais seria impressa.” A edição de nº 2.520 que nunca circulou trazia na capa Rubinho Barrichello comemorando sua primeira vitória na Fórmula 1.

A Manchete faz parte da Coleção Especial da Biblioteca da ECA. Essa coleção tem outros títulos importantes da imprensa brasileira, como Veja, Pasquim, Lampião da Esquina, Senhor, Isto é, O Cruzeiro etc. Como são materiais especiais necessitam de medidas diferenciadas de preservação e segurança, o acesso é intermediado pelos funcionários da Biblioteca, pode-se fotografar, não se pode xerocar, nem emprestar, mas não se assuste, o acesso não é tão complicado quanto possa parecer, pode vir que nós atendemos.

Documentos citados

Gonçalves, J.E.; Barros, J.A. (org.). Aconteceu na Manchete: as histórias que ninguém contou. Rio de Janeiro: Desiderata, 2008. p. 64 e 413.

MANCHETE. Rio de Janeiro: Bloch Editores, n. 1, 26 de abril de 1952. p.1.

Outros documentos

Nascimento, P.C. Jornalismo em revistas: ação e relação em Veja e Manchete, 1999. 176 p. Dissertação (Mestrado).

Silva, A.C.T.da. Temporalidades em imagens de imprensa: capas de revistas como signos de olhares contemporâneos. Maringá: Eduem, 2011.


Às vezes, a novidade é um jornal velho

22/02/2011

Se jornal virou coisa do passado, tanto melhor, ler jornal velho pode ter um gosto todo novo.

A biblioteca da ECA tem no acervo diversas publicações da dita imprensa alternativa dos anos 70, época marcada pela censura.

Depois de maio de 68 o mundo não poderia mais ser o mesmo. A mesma juventude exasperada que deslancha a liberação sexual e o psicodelismo das drogas vai fazer valer o feminismo e se meter em política. Na imprensa, o sinal dos tempos veio em forma de tablóide. Publicações ousadas, diferentes da bem comportada imprensa ‘Standard’ começaram a aparecer aos montes: mais de 160 publicações surgiriam até o fim dos anos 70. Conhecida como imprensa alternativa ou ‘nanica’, tinham a metade do tamanho de um jornal convencional, e o orçamento bem reduzido.

A Revolução não veio mas O Pasquim revolucionou a “imprensa nanica”. A patota (Millor, Fortuna, Ziraldo, Jaguar, Sérgio Augusto) gritava aos quatro cantos que ‘foi feito pra dar errado’. Mas parece que deu certo. Numa época em que a Veja (única com cobertura nacional) já reinava e vendia 170 mil, o Pasquim passou dos 200 mil. Pasquim significa “jornal injurioso, difamador”, nas palavras de Jaguar ‘Já que vão esculhambar o jornal, vamos esculhambá-lo desde logo’. Com a incumbência no próprio nome, o Pasquim esculhambava geral: políticos, músicos, artistas, a igreja, até a própria patota entrava na roda.

O jornal Opinião, ao contrário, tinha tudo pra dar certo, financiado pelo industrial nacionalista Fernando Gasparian , durou de 72 a 78. Era denso, texto corrido de mais de duas páginas, falava de economia, tinha tradução do Le Monde, Times e colaboradores do naipe de um Fernando Henrique. No inicio juntava esquerdistas de vários calibres, mas um racha na redação levou a ala ‘popular’ a fundar o ‘Movimento’, que se ocupou da questão operária. O Lula naquela época já era capa, só que na pele de líder sindical. O primeiro número de Movimento vendeu 21 mil exemplares em banca. Oscilou muito até chegar a quatro mil em fevereiro de 1978.

O acervo da ECA guarda uma enorme variedade de publicações deste período.

O Pif-Paf, que foi o ensaio para o Pasquim, o Coojornal de Porto Alegre, também de grande importância com entrevistas inéditas de importantes intelectuais, tem quase todos os números no acervo. O Lampião da Esquina publicação homossexual insuspeita também está no acervo e aguarda os iniciados.

Abaixo, a lista das publicações no acervo da ECA:

Clique na imagem para ampliar

Fonte: Kucinski, Bernardo. Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. Localização: 079.81 K95j 2.ed. Também disponível no acervo.


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