Ainda aproveitando o ensejo dos 60 anos da ECA, digitalizamos a maior parte dos números da Revista de Comunicações e Artes e elaboramos um índice de autores, indicando os títulos dos textos e o respectivo número e ano da revista. O material pode ser consultado aqui: https://www.eca.usp.br/biblioteca/revistas-da-ecc-e-da-eca. Os demais exemplares serão digitalizados em breve.
O primeiro número foi publicado em 1967, ainda com o nome de Revista da Escola de Comunicações Culturais (o antigo nome da ECA). A mudança para Comunicações e Artes veio em 1970. É provável que esta tenha sido a primeira revista editada pela ECA – ao menos entre o levantamento que conseguimos realizar: https://bibliotecadaeca.wordpress.com/2010/11/05/revistas-da-eca/
No editorial do primeiro número “Primeiras palavras” (1967, n. 1, p. 11), Júlio García Morejón faz uma reflexão que perdura nos dias atuais:
Tenho-me feito, a cada instante, as seguintes perguntas: Que é comunicação? Visto que isso represente alguma coisa, pois é quase que unânimemente aceito — e aceito até demais nestes instantes —, levado ao plano da docência e da pesquisa em nível universitário, que é ou como deve ser estruturada uma Faculdade de Comunicações? Limitar-me-ei a resumir as minhas experiências e as conclusões a que estou chegando.
Os textos, por sua vez, têm um caráter mais ensaístico, e versam sobre diversas temáticas que contemplam as Comunicações e as Artes. A revista apresenta as primeiras reflexões de autores que se tornaram canônicos, como José Marques de Melo, Jean-Claude Bernadet, Lupe Cotrim, Virgílio Noya Pinto, Walter Zanini, Ana Mae Barbosa e Freitas Nobre. Muitos desses artigos não estão disponíveis em outras fontes – nem mesmo os dados bibliográficos, além do texto completo.
Há também textos colaborativos. Em “Arte e Universidade” (n. 10, 1981, p.18), Arnaldo Daraya Contler, Jean-Claude Bernardet, José Resende, Leon Ferrari, Renina Katz e Silvana Garcia refletem, neste trecho, sobre o ensino de Música na Universidade:
A discussão em torno do centralismo burocrático administrativo da Universidade como uma forma de dominação, não deve se restringir a uma relação mecanicista estabelecida entre os estatutos e a constituição da empresa sob novos moldes capitalistas e autoritários, mas deve levar em consideração os problemas pedagógicos e teóricos que vêm norteando o ensino da música no Brasil. Geralmente, o aluno de música, tem sido considerado como uma “coisa” ou objeto, negando-se-lhe, inclusive, direito de ser o sujeito do próprio processo de aprendizagem. Essa relação denota reminiscências ainda presentes no ensino de música no Brasil. A diferença entre o sujeito (professor) e o aluno (objeto) é sempre justificada partindo-se do seguinte pressuposto: o professor sabe contraponto, harmonia, – teoria, o aluno, por outro lado, desconhece os princípios elementares da música; logo, é considerado incapaz de avaliar com rigor os pressupostos técnicos e estéticos que lhe estão sendo impostos. Por esse motivo, o aluno não pode expressar suas opiniões, pois o centro da discussão deve sempre girar entre os donos da cultura. Por exemplo, o folclore é ensinado para justificar inconscientemente uma ideologia de conotações nacionalistas, visando basicamente o estudo da composição musical. Mas a crítica dessa concepção educacional nunca é discutida, pois sendo a música uma arte marcadamente conotativa e utópica, facilita a manutenção dessa postura reacionária e conservadora de seus partidários. A música, conforme essa visão do saber, não possui nenhum comprometimento ou envolvimento com as classes sociais ou com as ideologias dominantes. Mas na prática a razão burguesa acaba se impondo, pois a música se insere numa determinada concepção de cultura, sempre vinculada a certos compromissos políticos e ideológicos assumidos implícita ou explicitamente pelos intelectuais.
Podemos pensar em aspectos teóricos como o conceito de centralismo burocrático ou mesmo folclore – esse último, por sua vez, têm sido debatido entre estudiosos da música. De todo modo, a discussão sobre o ensino e aprendizagem da música mostra que o problema não é novo.
Até mesmo temas compreendidos como mais recentes aparecem nos textos da revista. Em “Leitura e Desenvolvimento Tecnológico: Um novo Alfabetismo?” (n. 11, 1982, p. 13), Nelly de Camargo reforça o caráter social e político do desenvolvimento tecnológico:
A fantástica mobilidade da informação e do conhecimento que supera as barreiras do espaço e do tempo, e as características da tecnologia que expõe as limitações e fragilidades do Homem nas inumeráveis operações em que compete com a máquina (e perde), mesmo no domínio da própria inteligência e criatividade, levantam sérias preocupações de ordem política, económica e social, sobretudo educacional, tanto a nível de países, como de organizações internacionais, notáveis pelo esforço com que vêm patrocinando a polêmica esclarecedora sobre o assunto.
Esses são alguns dos artigos presentes nas revistas. Esperamos que esta iniciativa contribua para a preservação da memória intelectual da nossa Escola.